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Novembro | 2008

A lógica implacável da programação clássica
18/11/2008 - 15h58min

Quando os comitês de dirigentes das sociedades promotoras de corridas de cavalo se reúnem para elaborar um projeto de programação clássica para o próximo ano hípico, eles o fazem sempre com toda a pompa e solenidade que caracteriza este ato. É assim que funciona em qualquer parte do mundo. E os motivos são conhecidos: a programação clássica é o principal documento do turfe, sua Carta Magna, a Bíblia da atividade, se quiserem.

É dela que decorre todo o resto. Como se não bastasse, é a programação clássica que informa e dá consistência à programação semanal de corridas de qualquer Jockey Club que se pretenda organizado. Sem ela como eixo principal, as corridas de cavalo – como hoje as conhecemos – simplesmente não existiriam. Na verdade, o turfe só se popularizou e ganhou contornos definitivos, a partir do momento em que criou uma programação clássica para si, e de caráter universal.

Assim, a sobrevivência econômica de toda a indústria do cavalo de corridas – e como tal, a  prosperidade de criadores e proprietários, ademais dos empregos dos profissionais – depende diretamente da qualidade dessa programação, vale dizer, de sua lógica implacável.

A primeira conclusão, pois, é que o trabalho de elaborá–la, com datas e eventos perfeitamente encadeados entre si, não admite amadorismos e improvisações de qualquer espécie. Numa palavra, programação clássica é assunto e matéria para experientes profissionais do ofício.

Conceitos e metodologia

Alguns pilares conceituais têm que estar firmemente ancorados na mente de quem vai montar uma programação clássica.

Na Europa, onde tudo começou, são eles: (a) procurar correlacionar as provas clássicas do calendário de determinada sociedade promotora de corridas com as de suas congêneres do turfe internacional; (b) evitar, ao transe, mudar o nome, as características da chamada, e a época de realização de provas tradicionais, o que significa inventar o menos possível; (c) promover o lento e gradual aumento do grau de dificuldade de cada teste, dando tempo a que os animais melhor se adaptem às distâncias da programação.

Com base nesses pressupostos, o turfe do hemisfério norte desenvolveu, há anos, uma metodologia simples e direta para abordagem do problema, qual seja:

1°) Começa–se a construir qualquer programação clássica pelo que é mais óbvio (o eterno primado das primeiras coisas, em primeiro lugar). E a primeira coisa é o calendário clássico dos juvenis, assim entendidos como os produtos de 2 anos de idade hípica, que iniciam a temporada sendo medidos em provas de Grupo em 1.000 metros, e vão terminar, fêmeas e machos, sendo testados nos respectivos Criteria, em 1.600 metros. Nem mais, nem menos que isso.

2°) Daí em diante, tudo converge para a escolha do melhor de sua geração na milha e meia dos Derbys. Irrelevante, se alguns Derbys hoje em dia são disputados em distâncias menores que esta (caso do principal Derby  americano, e do Derby francês de 2008, disputado, embora por outras razões que não vêem ao caso, em 2.100 metros). Por definição, o melhor potro de 3 anos de sua geração é aquele que ganha o Derby em 2.400 metros; e a melhor potranca, aquela que vence o Diana, em 2.000 metros. Assim, a pirâmide do calendário dos 3 anos, tem, no mundo inteiro, um único e determinado objetivo: revelar os ganhadores do Derby e do Diana. Isso implica que nada deve ter prevalência, desviar a atenção, provocar rumor, ou perturbar a consecução desse objetivo. Por outras palavras, todas as prioridades do calendário dos 3 anos, todas as suas datas, chamadas, e distâncias têm de estar de acordo com as premissas maiores do Derby e do Diana. Fazer o contrário, ou deixar se envolver por conceitos e opiniões diferentes,  será sempre um convite ao desastre. Às vezes irremediável.

3°) Concluída a grade dos 3 anos, só então passa–se à programação dos chamados confrontos de peso por idade, ou seja, a comparação dos potros de uma geração com seus adversários de gerações anteriores. É a etapa final de construção da programação clássica, com a inserção das grandes provas de Grupo, abertas a um universo mais amplo de concorrentes. Nos EUA – como  forma inteligente de manter o interesse e reter a atenção do público até o final da temporada hípica – os animais mais velhos (leia–se, os de 4 anos e mais) disputam o que lá se denomina de tríplice–coroa dos animais de idade. Aliás, cavalos imortais do turfe americano, como Tom Fool e Forego, por exemplo, que, por um motivo ou outro, não conseguiram se expressar quando ainda potros, foram eleitos Cavalos do Ano, exatamente porque venceram esta espécie de segunda tríplice–coroa dos adultos. Nada impede que sigamos o exemplo do marketing americano e criemos algo parecido entre nós. Afinal, eles sempre nos deram aula de como captar e manter o interesse do público até o último dia da temporada.

4°) Fora as provas de Grupo, todas as demais provas do calendário clássico, denominadas, no Brasil, de Provas Especiais, atendem a dois – e somente dois – propósitos  específicos: o primeiro, é dar oportunidade aos especialistas de determinadas distâncias; o segundo, é servir de prêmio de consolação para animais situados alguns furos abaixo do padrão clássico. Para isso – nada mais que isso – é que servem as Listed Races do turfe internacional. Portanto, sua inserção na programação clássica se submete às conveniências e circunstâncias das provas de Grupo. Nunca ao contrário.

Classificação das provas de Grupo

Quando, a partir de 1971, resolveu–se classificar as principais provas do turfe mundial, separando–as em 3 categorias distintas (Grupos I, II e III), o que se pretendeu, antes de tudo, foi abrir a possibilidade de correlacionar eventos da mesma natureza, e atribuir–lhe peso e importância específicos. Um exemplo: guardadas as devidas proporções, o nosso GP Estado do Rio de Janeiro (Grupo I), na milha, equivale, teoricamente, aos 2000 Guineas inglês, corrido em Newmarket; ao seu similar irlandês, corrido no Curragh; à Poule d’Essai des Poulains francesa, corrida em Longchamp; ao Mehl–Mülhens–Rennen alemão, corrido em Colônia; ao Prêmio Parioli, italiano, corrido em Roma, e assim por diante.

Tais provas, entretanto, não são necessariamente classificadas como de Grupo I, embora representem nos turfes locais o primeiro grande teste da geração na direção do Derby. A milha alemã, por exemplo, é Grupo II, e a italiana Grupo III.

A diferença fundamental entre nós e o turfe do hemisfério norte, reside no fato de que a graduação em exame é decidida somente a partir de critérios objetivos de avaliação, que levam em conta inúmeros fatores, como a qualidade do teste ao longo dos anos; a categoria dos concorrentes; e a própria estrutura do turfe onde a prova se realiza.

Em resumo, promoções e rebaixamentos entre provas de Grupo do calendário clássico não são produzidos ao acaso, muito menos com base na opinião pessoal de quem monta um eventual projeto de programação.

Nomes das provas

Com mais forte razão, a proposta de mudança de nomes (e de datas) das provas pressupõe um debate preliminar, muitíssimo bem fundamentado, sobre os motivos e razões da alteração.

Não faz o menor sentido, mudar, de um ano para outro, a denominação de provas tradicionais do calendário clássico, a maioria delas já inteiramente absorvida pelo público, seja ele turfista ou não.

O máximo que se consegue com isso é, primeiro, descaracterizá–las; segundo, provocar uma inevitável confusão na mente dos principais interessados, no caso, os criadores e proprietários; e, terceiro, vulnerar toda a lógica da programação. Nada pode ser mais danoso à imagem de um turfe civilizado que a incerteza de relacionamento que isso provoca.

Aqui, a prudência e o equilíbrio, recomendam evitar–se o novo. É a repetição ad nauseam, não a inovação pela inovação, que consagra uma boa programação clássica.

Programação clássica e programação normal

Uma coisa depende da outra. De forma mais clara: o eixo em torno do qual é montada a programação normal de corridas de qualquer Jockey Club do mundo, é um só: a programação clássica. A primeira serve à segunda, não ao contrário.

Novamente, a lógica da construção pressupõe que as chamadas provas preparatórias dos grandes eventos do turfe (ou provas de Grupo I) devem ocorrer com antecedência mínima de 21 dias – tempo considerado ideal para que o aparelho ósseo dos animais se recupere das milhares de micro–fissuras todas as vezes em que pisam uma pista de corrida para competir. Nunca antes de 21 dias do evento principal, é a regra de ouro que consagra uma boa programação clássica. Não importa o que pensem os apressados (ou desinformados) a respeito.

Fora disso, ou seja, fora das provas de elite do calendário (Grupos I, II e III, pela ordem), e fora das Listed Races (ou Provas Especiais, cujos objetivos já foram anteriormente mencionados), a programação normal de corridas – e a conseqüente escolha de distâncias e pistas – funciona como instrumento de apoio da programação clássica. Ter este dogma sempre presente, inclusive facilita o trabalho dos "handicapeurs" na montagem dos programas semanais de corridas.

Na verdade, a forma mais rápida e eficiente de desorganizar um turfe, com todas as graves conseqüências daí resultantes, é inverter as prioridades, ou seja, imaginar que a programação normal de corridas, numa palavra, o dia a dia do turfe, existe a despeito da programação clássica. Não existe.

Eis aí, em resumo, as regras e conceitos básicos da construção de uma programação clássica decente nos países onde existe um turfe organizado. É claro que pequenas concessões ao ambiente, à cultura, e às circunstâncias próprias de cada Jockey Club, serão sempre possíveis.

O que não é possível, até por ridículo, é fazer tabula rasa de mais de 300 anos de tradição no aperfeiçoamento da raça puro–sangue inglês, e pretender reinventar a roda a cada nova programação clássica anual.

por Sergio Barcellos



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