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Outubro | 2008
Zarkava: Um diamante verde e algumas lições 14/10/2008 - 14h25min
Racing
Post/arquivo RL

O "Diamante Verde" se despediu das pistas
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Os franceses
com sua tradicional predileção pelos oxítonos a conhecem como Zarkavá. A mídia européia, como
o "diamante verde", em homenagem às cores centenárias de seu criador e
proprietário.
Na tarde cinza de domingo, 5 de outubro, em Longchamps, ela derrotou com
absurda facilidade os 15 melhores machos do continente, apesar de seu cartel informar que
eles já haviam somado, até aquele momento, nada menos que 32 vitórias em provas de Grupo,
sendo várias delas de Grupo I. Nesse dia, Zarkava deixou de ser apenas uma excepcional
potranca invicta; tornou–se uma lenda e entrou definitivamente para a história do turfe
mundial.
Graças ao prestígio pessoal de Afonso Burlamaqui e à generosidade fraterna de
seu amigo Alain de Royer–Dupré, treinador do mito, fomos vê–la na terça–feira, dois
dias depois do Prix de l’Arc du Triomphe, agora longe da multidão reverente dos
hipódromos, protegida pelos muros altos e o silêncio quase litúrgico de Aiglemont, essa
espécie de santuário da coudelaria Aga Khan, em Chantilly.
Impressões? Ela é calma,
muito calma. Sua autoconfiança quase sem limites, chega ao ponto de admitir a presença, e
mesmo de se deixar tocar, por estranhos que eventualmente entrem em seu box. O pescoço em
lâmina, longo e triangular, se encaixa com suavidade no excepcional feixe de músculos da
cernelha; abaixo dela, a paleta levemente arredondada é irrigada pela vastíssima trama dos
capilares inteiramente visíveis a olho nú, os locomotores corretos, secos, absolutamente
sadios.
Mas seu ponto de força é a belíssima cabeça que ela mantém invariavelmente
alta, orelhas apontadas para a frente, curiosa e atenta, a testa larga com quase um palmo de
distância entre os dois olhos, grandes, límpidos e brilhantes. Tudo nela respira têmpera,
atitude e qualidade. Um puro–sangue inglês de corrida no auge de seu esplendor físico, capaz
de causar emoção estética ao observador mais insensível. Sem mencionar o privilégio do
contato com 300 anos de seleção da raça decantados, por obra da genética ou do Fado, não
importa, num só indivíduo fora do comum.
Grande? Não, ela não é grande. Tampouco, se
parece com esses seres hermafroditas, um meio caminho vacilante entre os dois sexos,
lembrança dos tempos primais das éguas inglesas de batalha que estão na origem do
thoroughbred. Não. Ela é, sim, em tudo e por tudo, feminina equilibradíssima, numa
palavra, racée até a medula.
No sábado, véspera do Arco do Triunfo, o filme de sua
vitória no Vermeille foi aplaudido de pé pelos representantes de 67 países reunidos no jantar
de gala da 42ª Conferência Internacional das Autoridades Hípicas, em Paris. No domingo, faria
melhor ainda.
Largou mal outra vez – como se isso fosse irrelevante e já fizesse parte
de seu ethos. Soumillon, o jóquei, baixou as mãos, equilibrou–a e a deixou galopar, lá atrás,
o vento do deslocamento apenas fazendo tremular o cetim brilhante de sua blusa impecável. Sem
pressa, sem afobação, o menor sinal de ansiedade. Soumillon de gelo. E lá ela ficou, a quase
80 metros de distância dos ponteiros, até a entrada da reta final (a verdadeira) da difícil
pista de Longchamps.
Quando todos esperavam que os dois contornassem o lote e viessem
por fora, como fizeram no Diana e no Vermeille, uma surpresa: lá estavam eles deliberadamente
encaixotados, a três metros da cerca interna, se tanto, naturalmente contidos pelo muro de
concorrentes à sua frente.
Então, a 300 metros do disco, decidiram que era chegada a
hora: num átimo, Vision D’Etat (ganhador do Prix de Jockey Club, o Derby francês) e
Mendizabal, seu condutor, abriram uma pequena janela nessa verdadeira muralha e por ali os
dois se projetaram: ela, como um míssil que deixa a rampa de lançamento naquele instante;
ele, usando apenas braços, pernas e inteligência para guiá–la. Em poucos e rápidos galões,
tudo estava terminado. O conjunto perfeito, acelerando no timing certo. Ela, fazendo valer o
torque devastador da mudança de marcha de que é capaz; ele, apenas mantendo o ritmo
cadenciado, pernas coladas em seus flancos, mãos e tronco empurrando sem sequer imaginar
bater. Impensável espancar uma obra–prima da natureza.
Ganharam o Arco do Triunfo sem
que ela tivesse recebido uma só chicotada, nem mesmo para simplesmente alertá–la. Soumillon
impecável.
Depois de cruzar o disco, o gesto final de humildade: em pé no estribo, ele
olha para trás, brinca com seus colegas de profissão, e aponta várias vezes o dedo indicador
para ela, como a confirmar para o mundo quem realmente vencera. Na volta à repesagem, atira o
boné para a multidão em êxtase que se espremia contra a cerca das tribunas, tentando se
aproximar o mais possível da cena. Soumillon ungido.
O resto, foi o exército de
fotógrafos enfileirados na raia; a volta sempre tumultuada ao paddock, característica dos
heróis desse esporte; a Marsellaise orgulhosamente tocada na entrega dos troféus; uma enorme
bandeira tricolor ocupando todos os telões do hipódromo. E a manchete dos jornais do dia
seguinte: “Monumental!”
Como se treina uma obra–prima? Como se mantém a forma de um
animal desse calibre ao longo de duas temporadas clássicas, 7 corridas, 7 vitórias
históricas? Que ordens se dá antes do páreo a um jóquei que monta uma Zarkava? Parece
razoável tecer algumas observações a respeito.
Como se segue:
. Zarkava jamais
foi montada em treinamento por um jóquei profissional. Quem sempre a galopou e trabalhou nas
manhãs de bruma de Chantilly, desde os primeiros dias de juvenil, foi seu
cavalariço–redeador. Motivo? Seria irresistível a qualquer jóquei profissional tentar saber,
em trabalho, exatamente que tipo de ser existia debaixo do selim. Nada de novo, faz parte
dessa profissão, mas isso poderia perturbar todo o equilíbrio mental do animal. Até hoje,
Soumillon só a montou em dias de competição.
. Também, em nenhum momento de sua
impecável carreira, Zarkava foi solicitada a mostrar, em trabalho, do que seria capaz. Dias
antes do Arco, por exemplo, apenas galopou suavemente a distância e não aprontou. Cavalos
excepcionais tendem a ficar nervosos quando são “experimentados” antes do tempo. E isso,
segundo seus responsáveis, seria um risco para a preservação de sua autoconfiança.
.
Ordens ao jóquei antes da corrida? Literalmente nenhuma! Algumas decisões no nível de um
Grupo I como o Arco do Triunfo, têm que ser tomadas pelo jóquei em fração de segundos. As
dificuldades da pista são quase incontornáveis, os adversários constituem a própria elite do
cavalo de corridas, milhares as peripécias de carreira. Qualquer instrução, por mais bem
intencionada que seja, provoca inevitavelmente certo rumor na mente do jóquei, e anula o que
os grandes profissionais têm de peculiar: seu instinto natural para reconhecer as situações
da corrida e poder escolher, livremente, a melhor alternativa de ação. No caso de Zarkava, a
regra é uma só: é proibido dar ordens ao jóquei! O curioso é que seu famoso proprietário
respeita e adere determinado a esse conceito.
. Finalmente, restaria saber que medidas
foram tomadas, entre o Vermeille e o Arco do Triunfo, para evitar que ela novamente
largasse mal. Resposta: nenhuma! Largar mal faz parte do perfil funcional de certos cavalos
de exceção. Tentar consertar isso, obrigando–os a ter que refazer as penosas lições do
partidor, e com isso ameaçar quebrar seu espírito, pode ser letal. Em animais como Zarkava,
nascidos para correr, quanto menos se intervier em seu make up mental, melhor.
Talvez
seja exatamente por proceder desta forma – procurar entender e atuar o menos possível sobre a
natureza e o caráter dos animais que treina – é que Alain de Royer–Dupré trabalha e tem a
irrestrita confiança da coudelaria Aga Khan há mais de 30 anos. Ele se adapta aos cavalos,
nunca os cavalos a ele.
Talvez Zarkava jamais venha a ver novamente uma pista de
corrida – o que ela já fez foi suficiente e, do ponto de vista objetivo, não tem mais nada a
provar. Ou talvez termine seu período de amadurecimento e tente o bi–campeonato do Arco em
2009; outros cavalos imortais, como Corrida, mãe de Coaraze, fizeram isso no passado com
sucesso. No momento, porém, parece não haver nenhuma pressa em decidir sobre seu futuro como
corredora.
Uma coisa é certa: sua contribuição à maior divulgação do turfe entre nós
está além de qualquer avaliação. O que ela já conseguiu, excede qualquer campanha milionária
de publicidade e marketing das corridas de cavalo.
Se o que esse esporte hoje precisa
é dos heróis certos, então, para alegria de quem o ama, ele encontrou seu diamante verde na
tarde cinzenta do Bois de Boulogne, em 5 de outubro de 2008.
por Sergio Barcellos |

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