Maria Cristina da Fonseca Vieira, carioca, nascida em 14 de maio de 1956, foi casada com o treinador Atílio Rocha e não tem filhos.
Profissional das mais consideradas no mundo do turfe, teve vital importância para a participação das mulheres num universo que, durante anos, foi exclusivamente masculino. Seu trabalho, como veterinária, serviu de referência para outras profissionais que, há algum tempo, conseguiram conquistar espaço.
Fiel aprendiz do pai, João Vieira, figura respeitada pelo exercício da função de supervisor, principalmente, junto ao Stud Rocha Faria, Cristina sempre quis, desde criança, “cuidar dos bichos”. Nada a demoveu da idéia e, hoje, com quase 30 anos de profissão, mantém o mesmo entusiasmo da infância. Vamos conhecer um pouco mais desta que é um ícone na veterinária de nosso turfe.
Cristina, quando começou seu interesse pelos cavalos?
Meu pai, João Vieira, trabalhava como supervisor do Stud Rocha Faria e sempre me levava ao hipódromo e às cocheiras. Aquilo me fascinava e não cansava de repetir que meu desejo era cuidar dos bichos. Ele até sorria quando me ouvia falar isso, mas aos poucos foi se convencendo de que era mesmo o que eu pretendia da vida.
E, já na adolescência ele apoiou esta sua idéia?
De início não, pois dizia que era um mundo absolutamente masculino e que uma mulher não encontraria espaço. Não teria crédito e surgiriam muitas dificuldades para desenvolver o trabalho. Tentava, seguidamente, me demover da idéia. Já meu irmão, João Guilherme, queria ser treinador e sempre contou com total apoio de papai.
Mas você não desistia, de maneira alguma?
Quando entrei na faculdade, meu pai percebeu que a coisa era mais séria do que ele pensava. Então, disse que se era aquilo mesmo o que eu desejava, precisava conhecer profundamente o cavalo de corrida. Colocou–me para escovar, fazer cama, levar animais ao prado. Meu professor era o Xaveco, um cavalariço experiente da cocheira que me ensinava tudo.
E os outros empregados, como reagiram diante disso?
No início foi muito engraçado. Como eu tinha o cabelo grande, Xaveco me deu um boné para ser usado na hora de peneirar as camas. Quase sempre chegava um cavalariço, com outro ao lado, e dizia: “Eu não falei que era mulher”. Depois que eu fazia todo o serviço, direitinho, eles ainda me olhavam com aquele olhar de desconfiança.
Logo no primeiro ano de faculdade você conseguiu estágio no Hospital Octavio Dupont, certo?
Na época, o hospital era dirigido pela veterinária Vanessa Drummont e ela me acolheu como estagiária. Isso aconteceu em 1975. Eu trabalhava também no laboratório e, aos poucos, fui aprendendo, com a prática. Foi um início importante na minha carreira.
E os veterinários da época, também lhe deram apoio?
Que nada, ninguém me oferecia estágio para os clientes particulares. O Dr.Cavalari, depois de algum tempo, me ofereceu uma chance de acompanhá–lo no atendimento de alguns clientes e nas cirurgias que realizava. Foi mais um aprendizado que me serviu de experiência.
Aos poucos, os espaços foram aparecendo, então?
Foi exatamente assim, pois consegui respeito profissional e outros veterinários, como André Cotta, meu amigo até hoje, e Homero de Assis Brasil foram oferecendo oportunidades. E, já quase formada, comecei a conseguir alguns clientes.
Você lembra do primeiro cavalo que atendeu?
Não poderia me esquecer de forma alguma. Foi o Tico–Tico–Rei, que pertencia a Dagoberto Midosi e era treinado pelo Iedo Amaral. Teve também o Fralimo, cego de um olho.
Cristina, em quase 30 anos de carreira você deve ter enfrentado casos difíceis. Lembra de alguns que conseguiu recuperar?
Realmente, enfrentei casos complicados ao longo da minha carreira. Em particular lembro de um que me deu muita satisfação, o cavalo Spurn, do Haras LLC, de Claudio Ramos. Ele esteve à beira da morte e travamos uma luta incrível para salvá–lo. Foi grande a vitória, pois ele se recuperou e depois ganhou três corridas consecutivas. Ficamos “amigos” e ele andava atrás de mim na cocheira, solto. Aonde eu ia, ele me acompanhava. Era lindo.
Lembra de mais algum?
Teve o caso do reprodutor Homard, do Haras Santa Rita da Serra. Ele não estava conseguindo encher as éguas e, depois de exames, detectei um problema sério num dos testículos, que precisei extirpar. Depois, voltou a cobrir com sucesso.
Quais são os seus clientes, no momento?
Atendo alguns cavalos do Guignoni, do Serginho Vianna, do Zezinho Pedrosa, do Christiano Oliveira (Stud Baião), do Alcides Morales, do Orlando Martins Fernandes, do Arninho e aos corredores dos Studs Capitão e Alvarenga.
E como consegue dar conta de tudo isso?
Bom, na terça–feira subo a serra, volto para a Gávea e na quarta retorno para os centros de treinamento. É desgastante, mas faço o que gosto e quando a coisa funciona desta forma, é bem mais fácil. Adoro os cavalos, os profissionais, os cavalariços e sempre me sinto “em casa” quando chego nos lugares. A maior alegria é ver um cavalo que atendo conseguir bom resultado nas pistas. É a melhor recompensa. Eu realmente sou apaixonada pelos cavalos. Coloco apelido em todos eles e, por mais incrível que pareça, muitos me reconhecem e mudam de comportamento na minha presença.
Como você vê a medicina veterinária de hoje e quais foram os maiores progressos que aconteceram desde o início de sua carreira?
Os avanços foram imensos. Quando comecei o diagnóstico era praticamente instintivo. Hoje, com a endoscopia, com o ultra–som e os avanços nos exames laboratoriais a coisa funciona de outra forma. A artroscopia foi uma grande vitória na área cirúrgica. Melhoramos muito, mas ainda estamos uns 10 anos atrás do que há de mais moderno no mundo, principalmente nos Estados Unidos.
Hoje existem várias mulheres trabalhando como veterinárias. Como analisa o trabalho feminino conquistando espaço numa área que foi, durante anos, dominada pelos homens?
Em todos os setores da vida a mulher está ganhando espaço. Quando existe competência, não se pode contestar o trabalho por pura discriminação. A mulher tem um trato especial. Os bichos gostam disso. E elas têm uma capacidade fantástica de superação. A maternidade é algo que diferencia as mulheres dos homens. Eu não sou mãe, mas outras veterinárias como a Bianca e a Adriana são e conseguem trabalhar muito e serem mães exemplares.
Você se dá conta de que abriu o caminho para essas mulheres vencedoras no turfe?
Não sei se a colocação mais certa é esta. Fiz e faço o meu trabalho com amor e tenho orgulho de ter conquistado o meu espaço. Se consegui abrir o caminho para as mulheres, fico muito feliz. Mas foi com esforço e dedicação que todas as profissionais do turfe conquistaram o seu espaço.
Que conselho daria para as jovens veterinárias que hoje buscam estágio no turfe?
Que tenham certeza absoluta de que é isto que desejam. Que procurem aprender sempre e busquem as oportunidades com dedicação total. Tudo que é feito com amor acaba dando resultado. Você precisa ter o dom e aprimorá–lo com muito estudo e força de vontade. Cedo ou tarde a oportunidade vai aparecer e, se você estiver preparado, irá aproveitá–la.
por Marco Aurélio Ribeiro