Tinha sido um pequeno Haras. Mas, com o correr dos anos, todos os Haras da região foram cerrando as porteiras
e ficou abandonado. Os tempos se passaram e o abandono tomou conta.
Um dia, surgiram duas irmãs e
um rapaz interessados em iniciar uma fase nova, não um Haras ou um Centro de Treinamento, mas um Centro de Doma e
de Recuperação. Depois de uma boa limpeza, pintura nas cocheiras, reforma nos piquetes, consertos de cercas e de
canos, depois de uma trabalheira danada, tudo ficou um brinco, agradável de se ver.
As duas irmãs e o
rapaz se davam muito bem. Anabela era exímia amansadora e adestradora de cavalos, boa mão de rédea, muita
sensibilidade, com calma, firmeza, técnica e perseverança. Domando pelos mais modernos métodos, sem agressões que
eram substituídas por carinhos e compreensão. O Centro logo atraiu os potros e potrancas adquiridos em leilões
pelos proprietários inteligentes, entregando os seus animais a mãos competentes, em lugar do habitual massacre a
que, através dos anos, se submeteram àqueles que são preparados para uma vida de competições nas pistas de
corridas. Ao mesmo tempo, animais cansados, alguns com problemas, passaram a lá encontrar um lugar de recuperação,
boa água, boa comida, tranqüilidade ante os bons tratos, enfim, um oásis de recuperação. Aí entrou Luana, a
segunda irmã, nova, veterinária formada com distinção na Faculdade, da qual se despediu com notável monografia. O
bom ambiente para os cavalos e as qualidades pessoais e profissionais da hábil domadora Anabela e a competência e
aplicação da veterinária Luana garantiram, desde logo, o sucesso do empreendimento.
Quem administrava o
negócio, era o rapaz, o Ludovico, mestre no trato com os animais, hábil na orientação dos empregados, tomando
conta dos pagamentos, da receita e da despesa, das rações, do material de trabalho, dando um firme suporte ao
esquema de funcionamento. Ludovico era um faz–tudo e, experiente no ramo, ainda cuidava com muito carinho das
pastagens.
Havia uma salutar rotina de trabalho, um ritmo que possibilitasse o melhor atendimento a
todos os animais de forma adequada, sem pressa, sem correrias, aproveitando ao máximo a luz do dia.
Eram
três rações diárias, uma cedo, outra ao meio–dia, e, mais uma ao anoitecer, além de farta distribuição de
gramíneas e leguminosas.
A Dra. Luana ensinava aos empregados como cuidar das crinas e rabos dos
animais, só ripando, sem tesouras. Deixar crescer a crina da nuca dos animais, que sem justificativas plausíveis
são peladas. Esse verdadeiro despropósito deve ter pelo menos uma ponta de vontade de humilhar, de mostrar uma
submissão, qualquer coisa como foi feita logo após o término da guerra de 1939 a 1945, quando os patriotas
raspavam as cabeças das colaboracionistas que, muitas vezes movidas pelo temor da fome, haviam colaborado com as
forças invasoras. Coisa semelhante é feita nas prisões, quando os gays têm raspadas as suas sobrancelhas. O
intuito só pode ser a humilhação, a prepotência.
Enquanto Luana cuidava da recuperação, do natural
estresse e, ainda, dos potros da nova geração em preparativos, ou já em fase de doma, Anabela charreteava os
potros, amansava, adestrava, fazia trabalhos no picadeiro nos dois sentidos, visando fortalecer as musculaturas
das duas diagonais, trotando bastante para equilibrar e fortalecer. Um trabalho racional, paciente, repetitivo,
impingindo confiança em lugar de medo.
O Centro de Doma e de Recuperação tinha pouco mais de 80 boxes,
que quase nunca lotavam, pois só os proprietários e treinadores inteligentes entendiam e mandavam animais para
lá.
No meio do dia, as duas meninas e o rapaz, paravam por 2 horas, para almoçar e descansar, e
aproveitavam para brincar com o Godofredo, um papagaio muito falador que adorava que lhe coçassem o pescoço. As
meninas faziam com ele o que queriam e o ensinavam. O Ludovico também ia lá almoçar, sabia cozinhar um bom feijão,
e passou a levar com ele um gato que surgira miando muito, com fome. Era um momento gostoso de descanso, o
Godofredo encantando os três, enquanto o gato ficava quieto à sombra de uma árvore próxima. Foi em um desses
momentos que chegou um caminhão com ração. Anabela, Luana e Ludovico foram conferir a descarga, o motorista do
caminhão ficou um pouco para beber um copo de água e, com ele, naturalmente, o Godofredo e o gato. Levou um susto,
pois olhava distraído para o gato, quando o próprio gato perguntou a ele o que estava olhando. O motorista nunca
tinha visto um gato que falava. O homem não acreditou, perguntou ao gato se ele falava mesmo, e recebeu de pronto
uma resposta malcriada. As meninas e o Ludovico vinham voltando, e o motorista contou o que havia acontecido.
Risada geral, houvera um engano, quem falava era o Godofredo, não o gato. O motorista vislumbrou a oportunidade de
ganhar um dinheiro extra, vendendo o gato falador para o Lourival, conhecido como promotor de espetáculos
circenses. Perguntou quanto eles queriam pelo gato, não houve resposta adequada, pois o gato não estava à venda,
mas o motorista fez uma proposta muita alta (o gato falador, no circo, ia render uma fortuna), acabou levando o
gato. Com o bom dinheiro, foi comprado material mais moderno para radiografias.
Sem o gato malhado,
Ludovico arrumou um novo companheiro, que entrou na rotina do outro que se fora. À hora do intervalo, do almoço e
do descanso, as meninas brincavam e ensinavam o papagaio, o gato dormia à sombra e o Ludovico aproveitava para uns
telefonemas. No mês seguinte, quando um caminhão de serragem chegou para descarregar, Anabela, Luana e Ludovico,
como de hábito, foram conferir, o motorista pediu licença e foi na pia se refrescar. Viu o Godofredo tranqüilo no
seu poleiro e um gato deitado na sombra da árvore. O pêlo do gato era aveludado, e o homem resolveu fazer um
carinho. Mas antes de encostar a mão deu um pulo para trás, pois o gato mandou que ele fosse embora. Refeito do
susto, o homem tentou novamente se aproximar, mas o gato mandou novamente que ele fosse embora. Foi quando as
meninas e o Ludovico chegaram, e puseram–se a rir quando o motorista que nunca antes havia visto coisa igual
contou o que tinha acontecido. Em meio às risadas, eles esclareceram que o homem estava confuso, enganado, gatos
não falavam, quem sabia falar era naturalmente o papagaio. Mas o motorista percebeu ali uma forma de ganhar
dinheiro, ofereceu uma boa quantia e levou o gato. O dinheiro deu para comprar materiais para cirurgias e ainda
arreiamento novo para doma e adestramento.
Ludovico providenciou outro gato, dessa vez um de pêlo
tigrado. E tudo se repetiu, um dia apareceu um treinador, e quando ele estava sozinho com o Godofredo e o gato,
eis que o gato falou claramente que era melhor ele ir embora. Mesmo ante as negativas de Anabela, Luana e
Ludovico, o treinador insistiu que ele ouvira o gato falar, e que o comprava pelo preço que fosse, o gato tinha
que ir com ele. Mesmo avisado que o gato não falava, o treinador, metido a malandro, só acreditava no que ele vira
e ouvira. O bom dinheiro serviu para melhorar a adubação dos piquetes e melhorias no picadeiro. E assim, mais ou
menos mensalmente, o Centro de Doma e Recuperação passou a contar com uma nova fonte de receita, a venda de gatos.
Anabela, Luana e Ludovico nunca mentiram, sempre afirmaram que os gatos não falavam, quem falava era
naturalmente o papagaio. Mas também nunca disseram que o Godofredo era ventríloquo.