Hipólogo conceituado, respeitadíssimo pela maioria dos criadores brasileiros,
além de agente internacional, responsável pelas importações para o Brasil, entre outros, de Ghadeer, Roi Normand e
Nedawi e de inúmeras negociações, como por exemplo a de Dono da Raia para o mundo árabe, Samir Abujamra é muito
requisitado quando chega esta época do ano.
Por toda sua visão e conhecimento, é responsável pela carta de
monta de um grande número de criadores, procurando estabelecer as éguas mais compatíveis para o seleto número de
garanhões em atividade.
Profundo conhecer do mundo do turfe e para falar de sua enorme experiência no
assunto, do momento da criação nacional e mundial, o Raia Leve conversa com ele esta semana.
Em
recente publicação do Stud Book ficou claro que a criação brasileira está diminuindo. A que você atribui este
fato?
Evidentemente à situação econômica do país e do turfe, de uma maneira geral. Os prêmios são
muito baixos e a necessidade de enxugar os custos obrigaram muitos criadores a deixar a atividade. No Sul,
principalmente, os pequenos criadores, com número reduzido de éguas, pararam de criar, assim como em São Paulo. Se
voltarmos um pouco no tempo, fica fácil verificar que tanto o número de éguas quanto de criadores caiu pela
metade. Por mais apaixonados que os criadores sejam, chega uma hora que fica difícil continuar investindo sem a
possibilidade de retorno.
Com isso, certamente, a qualidade diminuiu, ou
não?
De certa forma não, pois acabou existindo uma seleção maior e foram utilizadas matrizes
melhores e os garanhões sem expressão deixaram de cobrir. Ainda assim, foi uma perda considerável. Em 1991, por
exemplo, existiam cerca de 1.500 criadores registrados e hoje eles não passam de 400.
O que
levou a Argentina, hoje, a contar com uma criação forte e conseguir trazer para a temporada sul–americana,
garanhões de primeira linha?
Tudo acaba tendo como fator determinante a situação econômica. Com
prêmios altos, o criador investe mais e obtém retorno nos leilões. Para trazer garanhões de primeiro nível, como
Bernstein, Henessy, Thunder Gulch e outros, é preciso investir alto. Arrendar estes cavalos custa entre 250 e 500
mil dólares e é necessário vender cobertura com preço médio de 15 mil dólares. Há muitos criadores interessados em
contar com o serviço destes reprodutores e o negócio se torna viável. O turfe argentino vive um grande momento e
tudo isso começou por Palermo. Não que eu acredite no fato de que a exploração dos caça–níqueis possa criar novos
turfistas, mas o dinheiro arrecadado com ele acabou beneficiando diretamente a atividade na Argentina. Com mais
dinheiro os prêmios melhoraram e recuperaram o turfe de uma forma ampla.
A busca pelo cruzamento
perfeito é o sonho de todo criador. Com o que dispomos hoje, no Brasil, é possível?
Em primeiro
lugar gostaria de deixar bem claro que o cruzamento perfeito não existe. O que há é uma linha de pensamento, uma
filosofia, uma teoria para o melhor aproveitamento genético. Eu posso defender um tipo de cruzamento e outra
pessoa pode acreditar em outro. Estive recentemente em Bagé, conversando com inúmeros criadores, cada um apostando
num tipo diferente para as coberturas. O elemento genético é variável e o cruzamento de um cavalo com a mesma
égua, repetido várias vezes, pode dar resultados absolutamente distintos. Numa geração pode sair um craque e na
outra, um matungo. Isso é que faz o turfe tão emocionante.
Você poderia dar um exemplo
disso?
Poderia citar vários, mas me vem um à cabeça neste instante. Lembro que comprei em
Newmarket a égua Victress, para a Fazenda Mondesir, mais tarde integrada ao plantel do Santa Ana, do meu amigo
Fragoso Pires e, da cobertura com Ghadeer, nasceu Falcon Jet. O vi perder em boa lei para o Cacique Negro, um
cavalo fantástico, mas que geneticamente não tinha nada de especial. Quari Bravo, grande campeão brasileiro, foi
outro que, no papel, não tinha nada para ser craque. Volto a dizer que por esta razão o turfe é tão apaixonante. É
claro que unindo qualidade, torna–se possível obter bons resultado. Mas, o cruzamento perfeito não existe e jamais
existirá.
Você foi e continua sendo responsável por grandes negociações de animais para o exterior.
Que corredor é mais fácil de vender, o brasileiro ou o argentino?
Sem dúvida alguma o cavalo
argentino é bem mais cobiçado pelos compradores mundiais. Há tempos eles observam as corridas e procuram importar
os melhores cavalos portenhos. Os investidores internacionais mantém “olheiros” por lá e sabem logo quando se
trata de um animal promissor. Não que sejam melhores que os nossos, mas o resultado dos argentinos é melhor. O
sucesso de Invasor, recentemente, aumentou ainda mais o interesse de americanos e dos sheiks. Agora mesmo, sem
esperar que o potro completasse 3 anos, o dono da Shadwell Stables, o mesmo de Invasor, já levou o ganhador do
Criteitrum.
O produto brasileiro tem mais aceitação no turfe americano ou é mais fácil vendê–lo ao
mundo árabe, por exemplo?
O americano quer um bom cavalo, que tenha resultados positivos até a
milha, seja na areia ou na grama, uma vez que as pistas utilizadas por lá não prejudicam aqueles que conseguiram
os melhores resultados no gramado. É importante para eles o cavalo que tenha aceleração final. Já no mundo árabe,
o resultado é fundamental. O bom ganhador clássico sempre tem mercado.
Durante anos, criava–se
para vencer as principais provas, mas hoje a intenção maior é tirar um craque para vendê–lo. O que mudou nas
últimas décadas?
Nos anos dourados do turfe brasileiro, nas décadas de 50 e 60, existia uma
rivalidade muito grande entre os maiores criadores do país. Se um importava um grande corredor europeu ou
argentino, outro logo se dispunha a buscar um de categoria igual ou superior. Lembro de um caso interessante,
quando Linneo de Paula Machado importou Formasterus para correr o GP Brasil e um criador paulista, Paulo Lara, não
se conformou e disse que tinha que arranjar um cavalo para derrotá–lo. Foi quando importou da Argentina o craque
Helium, que acabou vencendo a carreira e depois se tornou um grande reprodutor. Infelizmente, hoje, não existe
mais este espírito. A maior preocupação dos grandes criadores é equilibrar as contas e tentar não ter prejuízos,
procurando otimizar o custo–benefício.
Mas a criação brasileira é capaz de produzir campeões,
certo?
É evidente que sim. Bagé é a terra do cavalo e o mesmo ou até melhor que foi São Paulo há
algumas décadas. A paixão pelo cavalo de corrida ainda move os grandes criadores, assim como os mais novos no
turfe como, por exemplo, o Stud Eternamente Rio, que partiu para criar em seu próprio haras, e Luiz Edmundo
Barbosa (Stud Capitão), este mantendo nas terras do Fronteira um número expressivo de reprodutoras. Grandes
criadores estão mandando éguas para a Argentina, aproveitando a presença de garanhões renomados na temporada
sul–americana e proprietários ainda conseguem vibrar com vitórias, mesmo com baixo retorno financeiro. A situação
econômica mudou, as dificuldades são maiores, mas a emoção não acabou e move todos aqueles que, através do tempo,
aprenderam a viver a alegria do turfe.
por Marco Aurélio
Ribeiro