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Julho | 2007

Samir Abujamra, sempre em busca do craque
31/07/2007 - 22h57min

Paulo Bezerra Jr./divulgação JCSP

Samir, hipólogo respeitado

Hipólogo conceituado, respeitadíssimo pela maioria dos criadores brasileiros, além de agente internacional, responsável pelas importações para o Brasil, entre outros, de Ghadeer, Roi Normand e Nedawi e de inúmeras negociações, como por exemplo a de Dono da Raia para o mundo árabe, Samir Abujamra é muito requisitado quando chega esta época do ano.

Por toda sua visão e conhecimento, é responsável pela carta de monta de um grande número de criadores, procurando estabelecer as éguas mais compatíveis para o seleto número de garanhões em atividade.

Profundo conhecer do mundo do turfe e para falar de sua enorme experiência no assunto, do momento da criação nacional e mundial, o Raia Leve conversa com ele esta semana.

Em recente publicação do Stud Book ficou claro que a criação brasileira está diminuindo. A que você atribui este fato?

Evidentemente à situação econômica do país e do turfe, de uma maneira geral. Os prêmios são muito baixos e a necessidade de enxugar os custos obrigaram muitos criadores a deixar a atividade. No Sul, principalmente, os pequenos criadores, com número reduzido de éguas, pararam de criar, assim como em São Paulo. Se voltarmos um pouco no tempo, fica fácil verificar que tanto o número de éguas quanto de criadores caiu pela metade. Por mais apaixonados que os criadores sejam, chega uma hora que fica difícil continuar investindo sem a possibilidade de retorno.

Com isso, certamente, a qualidade diminuiu, ou não?

De certa forma não, pois acabou existindo uma seleção maior e foram utilizadas matrizes melhores e os garanhões sem expressão deixaram de cobrir. Ainda assim, foi uma perda considerável. Em 1991, por exemplo, existiam cerca de 1.500 criadores registrados e hoje eles não passam de 400.

O que levou a Argentina, hoje, a contar com uma criação forte e conseguir trazer para a temporada sul–americana, garanhões de primeira linha?

Tudo acaba tendo como fator determinante a situação econômica. Com prêmios altos, o criador investe mais e obtém retorno nos leilões. Para trazer garanhões de primeiro nível, como Bernstein, Henessy, Thunder Gulch e outros, é preciso investir alto. Arrendar estes cavalos custa entre 250 e 500 mil dólares e é necessário vender cobertura com preço médio de 15 mil dólares. Há muitos criadores interessados em contar com o serviço destes reprodutores e o negócio se torna viável. O turfe argentino vive um grande momento e tudo isso começou por Palermo. Não que eu acredite no fato de que a exploração dos caça–níqueis possa criar novos turfistas, mas o dinheiro arrecadado com ele acabou beneficiando diretamente a atividade na Argentina. Com mais dinheiro os prêmios melhoraram e recuperaram o turfe de uma forma ampla.

A busca pelo cruzamento perfeito é o sonho de todo criador. Com o que dispomos hoje, no Brasil, é possível?

Em primeiro lugar gostaria de deixar bem claro que o cruzamento perfeito não existe. O que há é uma linha de pensamento, uma filosofia, uma teoria para o melhor aproveitamento genético. Eu posso defender um tipo de cruzamento e outra pessoa pode acreditar em outro. Estive recentemente em Bagé, conversando com inúmeros criadores, cada um apostando num tipo diferente para as coberturas. O elemento genético é variável e o cruzamento de um cavalo com a mesma égua, repetido várias vezes, pode dar resultados absolutamente distintos. Numa geração pode sair um craque e na outra, um matungo. Isso é que faz o turfe tão emocionante.

Você poderia dar um exemplo disso?

Poderia citar vários, mas me vem um à cabeça neste instante. Lembro que comprei em Newmarket a égua Victress, para a Fazenda Mondesir, mais tarde integrada ao plantel do Santa Ana, do meu amigo Fragoso Pires e, da cobertura com Ghadeer, nasceu Falcon Jet. O vi perder em boa lei para o Cacique Negro, um cavalo fantástico, mas que geneticamente não tinha nada de especial. Quari Bravo, grande campeão brasileiro, foi outro que, no papel, não tinha nada para ser craque. Volto a dizer que por esta razão o turfe é tão apaixonante. É claro que unindo qualidade, torna–se possível obter bons resultado. Mas, o cruzamento perfeito não existe e jamais existirá.

Você foi e continua sendo responsável por grandes negociações de animais para o exterior. Que corredor é mais fácil de vender, o brasileiro ou o argentino?

Sem dúvida alguma o cavalo argentino é bem mais cobiçado pelos compradores mundiais. Há tempos eles observam as corridas e procuram importar os melhores cavalos portenhos. Os investidores internacionais mantém “olheiros” por lá e sabem logo quando se trata de um animal promissor. Não que sejam melhores que os nossos, mas o resultado dos argentinos é melhor. O sucesso de Invasor, recentemente, aumentou ainda mais o interesse de americanos e dos sheiks. Agora mesmo, sem esperar que o potro completasse 3 anos, o dono da Shadwell Stables, o mesmo de Invasor, já levou o ganhador do Criteitrum.

O produto brasileiro tem mais aceitação no turfe americano ou é mais fácil vendê–lo ao mundo árabe, por exemplo?

O americano quer um bom cavalo, que tenha resultados positivos até a milha, seja na areia ou na grama, uma vez que as pistas utilizadas por lá não prejudicam aqueles que conseguiram os melhores resultados no gramado. É importante para eles o cavalo que tenha aceleração final. Já no mundo árabe, o resultado é fundamental. O bom ganhador clássico sempre tem mercado.

Durante anos, criava–se para vencer as principais provas, mas hoje a intenção maior é tirar um craque para vendê–lo. O que mudou nas últimas décadas?

Nos anos dourados do turfe brasileiro, nas décadas de 50 e 60, existia uma rivalidade muito grande entre os maiores criadores do país. Se um importava um grande corredor europeu ou argentino, outro logo se dispunha a buscar um de categoria igual ou superior. Lembro de um caso interessante, quando Linneo de Paula Machado importou Formasterus para correr o GP Brasil e um criador paulista, Paulo Lara, não se conformou e disse que tinha que arranjar um cavalo para derrotá–lo. Foi quando importou da Argentina o craque Helium, que acabou vencendo a carreira e depois se tornou um grande reprodutor. Infelizmente, hoje, não existe mais este espírito. A maior preocupação dos grandes criadores é equilibrar as contas e tentar não ter prejuízos, procurando otimizar o custo–benefício.

Mas a criação brasileira é capaz de produzir campeões, certo?

É evidente que sim. Bagé é a terra do cavalo e o mesmo ou até melhor que foi São Paulo há algumas décadas. A paixão pelo cavalo de corrida ainda move os grandes criadores, assim como os mais novos no turfe como, por exemplo, o Stud Eternamente Rio, que partiu para criar em seu próprio haras, e Luiz Edmundo Barbosa (Stud Capitão), este mantendo nas terras do Fronteira um número expressivo de reprodutoras. Grandes criadores estão mandando éguas para a Argentina, aproveitando a presença de garanhões renomados na temporada sul–americana e proprietários ainda conseguem vibrar com vitórias, mesmo com baixo retorno financeiro. A situação econômica mudou, as dificuldades são maiores, mas a emoção não acabou e move todos aqueles que, através do tempo, aprenderam a viver a alegria do turfe.

por Marco Aurélio Ribeiro



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