O GP São Paulo nasceu em 1923, no hipódromo da Mooca, 10 anos antes do primeiro GP Brasil. Na época e até 1947, foi corrido nas duas milhas, arredondadas para 3.200 metros. De Garbosa Bruleur, vitoriosa em 1948, até o último dos três êxitos de Adil, em 1957, foi disputado em 3.000 metros, passando a seguir, em 1958, com a vitória de Dulce, para os atuais 2.400 metros. O primeiro ganhador, defendendo as cores de Rodolpho Crespi, foi Mehemet Ali, um cavalo argentino filho de Diamond Jubilee, este um produto de St. Simon.
A prova máxima do turfe paulistano é corrida em Cidade Jardim desde 1941, e no mês de maio há quase 60 anos, desde 1948.
Sobrenomes famosos marcaram época no topo do placar, como Crespi, Cunha Bueno, Paula Machado, Lara Campos, Buarque de Macedo, Paulino Nogueira, Peixoto Castro, Lodi, Almeida Prado, Assumpção, Seabra e outros.
A carreira não foi disputada nos anos de 1930 e 1940. Porém, em 1931 houve duas edições. Da lista de 83 ganhadores encontramos 11 éguas: a inglesa Good Money (33), Coraly (47)e Garbosa Bruleur (48), depois Jocosa (51), Dulce (58), Donética (78), o duo Bretagne (85) e Cisplatine (86), Rafaga Sureña (96), Sweet Eternity (99) e a última, Canzone, em 2001. Na versão deste ano, não há fêmea inscrita.
Cavalos fundamentais como Formasterus (36), Gualicho (52/53), Quiproquó (54), Adil (55/56/57), Farwell (60), Arturo A (61/62), Viziane (71), Figuron (73), Dark Bown (80), Clackson (82), Kenético (83), Thignon Lafré (91), Much Better (94) e Quari Bravo (98), entre outros, atestam o significado e a tradição do GP São Paulo no decorrer destes 85 anos de história.
Quem leu o “De Rédeas Soltas” publicado ontem, percebeu que falei, falei e não falei nada sobre o GP São Paulo 2007. Primeiro devo salientar, para quem não assistia a Mesa do Turfe, que sou um pouco “folclórico” para indicar nas corridas. Costumo ir contra os favoritos e, como dizem os amigos, invento demais. Passo à análise das cinco provas de Grupo I que integram o majestoso festival.
GP Juliano Martins, 1.600m, grama, potros de 2 anos.
A geração 2004 tem seu primeiro grande momento na disputa do Criterium paulista, que define, quase sempre, o campeão 2 anos. Ano passado, Amigo Peru (Talloires) era invicto, mas o então perdedor Quick Road (Jules) venceu por dois corpos, com Nelito Cunha, derrotando o favorito carioca Quick Hawk (Spend a Buck), que vinha de segundo para Quatro Mares (Jules), à frente de Tudo Azul (Boatman), na Gávea. A fêmea Ohneguinha (Vettori), do TNT, fez terceiro, atropelando forte, com Amigo Peru a seguir. Seduttore Indecent (Fantastic Dancer) era o que tinha a estréia mais promissora, porém acabou em sétimo, bem jogado.
Neste ano, o Stud Raça também tem uma parelha fortíssima, mas radicada em São Paulo. Nítido (Put it Back) e Jolly Roger (Know Heights) venceram em grande estilo, na estréia, no mesmo dia. Entretanto, o fato de terem apenas uma atuação na campanha pode ser entendido como um aspecto negativo. Mais experiente e atual líder inconteste, Bain Douche (Know Heights) é o potro a ser batido. Correrá sozinho contra três parelhas e, bem possivelmente, dependerá do seu físico privilegiado para escorar e ser escorado durante o percurso. Já mostrou coragem. A temer a atropelada dos que irão correr sossegados, como deve ser o caso de Nítido, por isso, mesmo inexperiente, meu favorito. Mr. Universo (Roi Normand), que marcou ótimo tempo na última, é um rival de respeito, porém pode se complicar no train de corrida. Parc des Princes (Vettori), muito falado, merece atenção.
GP OSAF, 2.000m, grama, éguas de 3 e mais anos.
Acertar no OSAF sempre foi muito difícil. Nos últimos anos, tem apresentado o campo mais cheio, equilibrado e imprevisível. Helisangela, com Marcelo Cardoso, foi a vencedora ano passado, representando as mais novas. As três primeiras, aliás, tinham em comum, além da idade, o fato de terem vindo do Rio de Janeiro (Crystal Day e Nossa Carolina). Dadeland foi a quarta.
Em 2007 o campo continuou frondoso, com suplentes. Destaco na ordem de minha preferência, Immortelle (Vettori), que vem de vitórias no 25 de Janeiro, contra as mais velhas e na areia, e no Diana, contra a nata das contemporâneas, na Gávea. Depois, na fase do Palura, acho Sherikan (Blush Rambler) um perigo. O ritmo da prova deve ser ligeiro e ela tem tudo para adorar a relva de Cidade Jardim, como seus irmãos. Queen Maud (Groove) reapareceu com boa atuação e pode surpreender de ponta a ponta. Sempre esperada, a pequenina Heckie (Know Heights) tem a chance de se recuperar do fracasso do ano passado, quando era uma das preferidas. Pode se tornar uma nova Oriental Filly.
GP Presidente da República, 1.600m grama, produtos de 3 e mais anos.
A prova acabou saindo com um campo pequeno, mas compacto. No ano anterior foi aquela quebradeira na primeira fase do percurso, vencendo o impressionante Bandido Secreto, mais uma de Marcelo Cardoso. Serial Winner, vindo de trás, formou a dupla, ambos então com 3 anos. Lucky Dance e Spanish vieram depois, completando o quarteto de potros. Admito que Ônibus Espacial (Exile King) e Glória de Campeão (Impression) são os que ostentam o melhor papel para vencer. E já ouvi falar muito que o Don Lopes (Saramon) anda tinindo, pronto para confirmar a última. Mas estou com palpite no atropelador do páreo, justamente Serial Winner (Yagli), que tem contra, lógico, o fato de não correr desde setembro. A seguir o exemplo de Xábega, companheira de cocheira, deve reaparecer muito bem. Vai ser difícil seguir o ritmo sem se desligar demais e, mesmo assim, conseguir o ímpeto justo para atropelar, mas tenho fé.
GP ABCPCC, 1.000m, grama, produtos de 3 e mais anos.
Não temos um campeão esse ano como tivemos Omaggio, no ano passado, derrotado pela surpreendente Xábega (Marcelo Gonçalves), por pescoço. Grená e Ipê Roxo chegaram na seqüência. Normabelle (Punk) é a que tem, para mim, mais categoria. O retrospecto é invejável, porém, como nunca atuou no retão daqui e, nas duas últimas, veio de trás, pode estranhar a falta do cotovelo da pista carioca. Kik–Malo (Feijão Preto), embora apresente um galope que não entusiasma, mantém a aura de melhor velocista paulista da atualidade. É bom lembrar que venceu um dos fortes adversários daqui, o castanho Quartieri (Dodge), prejudicado na última. São sete cariocas nesta carreira e o que largará por fora de todos, o experiente Karlo Guitar (Mountain–Lark), parece–me com boas possibilidades de também chegar brigando. É meu palpite. É a prova mais difícil para pinçar os quatro. Se comentasse sobre oito, poderia passar a vergonha de vingarem outros dois.
GP São Paulo, 2.400m, grama, produtos de 3 e mais anos.
Todos se lembram do ano passado. Oakfast com um boqueirão na frente, somente alcançado no final pela atropelada irresistível de Dono da Raia, pilotado na medida por Marcelo Gonçalves. Dobradinha do CT de Campinas, com His Friend e Sinistro, ambos do Rio, chegando a seguir. Na minha cabeça, estou imaginando um confronto inicial entre Oakfast, muito bem balizado, e Top Hat. Happy Boy e L’Amico Steve correndo juntos, alguns corpos atrás dos dois ponteiros, tendo Quick Road e Fuco a seguir, preparados para a reta de chegada, enquanto Naperon deve permanecer lá atrás, aguardando para atropelar. É meu cenário, obviamente nem um pouco infalível. Daí em diante, no tiro direto, é que a previsão se complica. Por outro lado, o estado da raia pode modificar tudo. Top Hat, na pesada, pode até ser retirado, o que mudaria, sem dúvida, o ritmo da prova. L’amico Steve vira leão, difícil de ser batido. Então padronizarei com uma grama macia, pensando no tempo hoje, quando escrevo, segunda à noite.
É teimosia, mas vou de Quick Road (Jules), reforçado por Top Hat (Royal Academy), que deve estar mais do que preparado para abordar a milha e meia. De repente se livra fácil do Oakfast e folga... Pode perfeitamente não ser mais alcançado. Naperon (Know Heights), com corrida potencialmente favorável, é o cavalo a vir atropelando. Está comentado nos bastidores e conta com o reforço do potro, em evolução, forte candidato, Fuco (Nedawi). L’Amico Steve (Spend a Buck) e Happy Boy (Ski Champ), dessa vez talvez com o tordilho à frente, completam meus quatro (cinco) prediletos.
Difícil, mas qualquer festival do porte do GP São Paulo merece a maior quantidade de especulações possível. Não deixa de ser, afinal, o exercício que todos os turfistas fazem sempre, mesmo num páreo de perdedores: quem chegará na frente de quem.
Vamos acompanhar outras opiniões (sempre melhor antes das provas), de outros comentaristas, dos turfistas nas tribunas, dos leitores fiéis do Raia Leve e aguardar o desfecho de mais um GP São Paulo.
por Ricardo Ravagnani