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Colunista:

Cotidiano do JCSP deve mudar pouco com tombamento
24/06/2010 - 17h10min

A partir deste mês, o Jockey Club de São Paulo é reconhecidamente um patrimônio histórico. Aprovado pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), o projeto de tombamento do hipódromo da Cidade Jardim divide opiniões. “A figura do tombamento tem poucos efeitos na prática da preservação do bem cultural, é apenas um reconhecimento oficial”, afirma Maria Lucia Pinheiro, professora de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A decisão do governo estadual muda, contudo, os planos imobiliários das empreiteiras Gafisa e OAS no local.

“O Jockey é hoje uma colcha de retalhos”, diz Antonio Lafayette Salles, coordenador do grupo pró–Jockey, criado por sócios do clube em março do ano passado para “defender o respeito ao estatuto social, a transparência nas contas e nos atos de gestão da administração”. Esses sócios discordavam do consórcio firmado com as construtoras, alegando que o atual presidente da instituição, Marcio Toledo, ignorou os processos de tombamentos iniciados há quase dez anos.

A decisão final do Condephaat foi comemorada por Lafayette. Para ele, “a sentença salvou o clube”. “Tombamento não significa congelamento. Se fosse assim, cidades históricas, como Roma, Paris e Londres, teriam parado no tempo. O respeito a um plano diretor determina um conjunto harmônico que preserve o patrimônio e o organize de forma a disponibilizar áreas específicas para cada finalidade, inclusive para a construção de novos empreendimentos”, disse. O plano da Gafisa e da OAS incluía a construção de torres comerciais numa área de 100 mil metros quadrados – o Jockey ocupa cerca de 600 mil metros quadrados.

Localizado em área nobre de São Paulo e endividado em cerca de R$ 250 milhões, o clube é motivo de diversas especulações imobiliárias. Em janeiro do ano passado, o jornal “Folha de S. Paulo” revelou que o prefeito Gilberto Kassab estudava desapropriar a área e transformá–la em parque público. À época, o valor venal do imóvel foi calculado em R$ 306,2 milhões. O pró–Jockey disse desconhecer a intenção do governo. “Na prática, já é um parque. O acesso ao público é gratuito, as pessoas podem até fazer piqueniques lá, mas talvez isso seja pouco divulgado”, afirma Lafayette.

Valor histórico

Inaugurado no dia do aniversário da cidade em 1941, o Jockey Club foi projetado pelo arquiteto Elisiário Bahiano, o mesmo responsável pelo Viaduto do Chá, e segue o estilo art déco. A professora Maria Lucia Pinheiro destaca a parte das arquibancadas do hipódromo como a mais bela da construção. “Tem uma marquise enorme, é monumental”. Para ela, o tombamento do espaço é ainda “um ganho para a cidade, que é tão carente em áreas verdes”.

Maria Lucia explica que as regras sobre patrimônio histórico não são muito claras no Brasil. Em outros países, segundo ela, existem critérios como idade dos monumentos e se o autor já morreu. “O ideal é que esse valor deveria incorporar não só a qualidade arquitetônica do edifício, mas o reconhecimento e a apropriação do local pelo próprio público”, diz. O governo tem a atribuição do tombamento e é independente para realizá–lo, mesmo em locais privados.

O reconhecimento dos bens culturais de São Paulo não tem, contudo, transformado a realidade desses lugares. “A grande maioria dos edifícios tombados mudou pouco, alguns até se deterioraram”, afirma a arquiteta. Ela cita alguns exemplos: o casarão da Avenida. Paulista, que se transformou em centro de adoção de cães e gatos, e o Castelinho da Rua Apa (esquina com a Avenida São João), onde, após um crime que ocorreu nos anos 1930, funciona atualmente uma creche. “No Brasil, existe muito essa mentalidade do progresso, do moderno, de demolir o antigo para dar espaço ao novo. É um País carente de milhões de outras coisas, e isso impede que a sociedade tenha um nível cultural mais sofisticado, uma consciência de paisagem urbana e a sensibilidade de reconhecer o valor de locais que retratam uma época”.

A reportagem procurou o Jockey Club e as construtoras, que, por meio de suas assessorias de imprensa, informaram que não se pronunciariam sobre o assunto.

Transcrito do Site da Abril – Notícias (24/06/2010)
Reportagem de Mariana Barboza



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