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Regressão no Turfe, por Luís Eduardo da Costa Carvalho 21/06/2010 - 10h24min
As pistas do Hipódromo da Gávea, sede do Jockey Club Brasileiro, fundado em 1868, constituem o estuário e vitrine final de uma longa e complexa cadeia de produção que se inicia nos haras, passa pelos centros de monta e treinamento, resulta no espetáculo multicolorido das corridas e retorna aos haras quando os animais aposentados são dirigidos à reprodução.
Essa engrenagem sofisticada emprega e oferece oportunidades de ascensão social a algumas dezenas de milhares de brasileiros.
O turfe vem sofrendo, ha algumas décadas, um sério processo, de regressão com perda de público e receitas, o que lhe dificulta a sobrevivência e chega a ameaçar a existência. Tanto quanto no futebol, nossos craques turfísticos só encontram esperanças na migração para o exterior, sejam eles os condutores ou os animais.
A decadência do turfe tem se refletido no esvaziamento continuo do Hipódromo da Gávea, que já foi considerado a sala de visitas do Rio de Janeiro. Nele se recepcionavam os chefes de Estado estrangeiros, quando chegavam à antiga capital da Republica.
A perda de musculatura no cerne de suas atividades e a estrutural queda no movimento geral de apostas acarretam ao Jockey Club Brasileiro dificuldades até para conservação e manutenção daquele imenso patrimônio, em detrimento da auto–estima local e do status nacional e internacional da Cidade Maravilhosa.
Estamos diante de um circulo vicioso que urge reverter. Quanto menos público, menos apostas e prêmios menores, que resultam em desestimulo para proprietários, criadores e profissionais.
É necessário reconquistar platéia, aumentar os volumes financeiros e recolocar a cadeia produtiva do turfe em trilhas que a conduzam a retomada do crescimento e, como resultado, produção de mais riqueza e entretenimento.
A fórmula para revigorar os hipódromos e o turfe existe e já foi testada, com grande sucesso, em nossos vizinhos do Cone Sul.
Os prados de Palermo, em Buenos Aires, e Maroñas, em Montevidéu, estão hoje modernizados e em grande atividade. Promovem o desenvolvimento do turfe e da criação de cavalos na Argentina e Uruguai. Superam largamente as curvas declinantes das mesmas atividades no Brasil.
Os hipódromos platinos foram amplamente renovados e se transformaram em centros de entretenimento lúdico, em que as corridas são a atração principal, mas não o único espetáculo. Bares, lojas, restaurantes e outros atrativos passaram a compor o perfil reconstruído daquelas velhas estruturas decadentes.
A Lei do Turfe brasileira, de 1984, admite a mesma estratégia. Conforme a lei, os jockeys clubes podem explorar loterias instantâneas que atrairão novos frequentadores, aumentarão o movimento de apostas e permitirão o pagamento de prêmios mais alentados.
Tal conjunto de fatores vai injetar novos estímulos financeiros no circuito da criação. E o melhor: em total consonância com as autoridades fazendárias, de forma totalmente controlada e legalizada, com fiscalização, arrecadação de tributos e geração de empregos.
Não fosse apenas pela revitalização do turfe ou da criação de cavalos, o revigoramento do Hipódromo da Gávea esta em convergência absoluta com as necessidades de alavancar o Rio de Janeiro e seus equipamentos urbanos nos anos que antecedem a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Mais: trata–se de oferecer alternativas de entretenimento para a população e uma nova fonte de arrecadação para os cofres públicos.
E inadmissível que um patrimônio valioso como o do Jockey Club Brasileiro fique refém de uma decadência que é possível e legitimo evitar.
Transcrito do Jornal O Globo (Opinião – 7) de 20 de Janeiro de 2010

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