




Colunista:
Lasix e a guerra pelo acesso aos mercados, por Sergio Barcellos 13/04/2010 - 11h00min
Não bastasse a explosiva entrevista do treinador sul–africano, Mike de Kock, aos jornais argentinos (transcrita na “newsletter” do site da APFT, de 8 de abril), as autoridades turfísticas daquele país, realizaram, no dia 10 de março, em Buenos Aires, a primeira reunião do Comitê Nacional de Sanidade e Substâncias Proibidas no Puro Sangue de Corridas para estudar o uso da furosemida (e da fenilbutazona) em animais inscritos para correr.
Mike de Kock não fez por menos em suas declarações: afirmou, tout court, que “os sul–americanos abusam do Lasix, e criam com cavalos norte–americanos, uma raça de sangradores.”
Parou por aí? Não. Foi em frente, sem fazer nenhum segredo do que pensa: “Cada vez mais, na Argentina principalmente, están usando padrillo y madres americanas y esto creo que los arrojará peores resultados.” Não satisfeito, informou: “Yo no recomendo ir más a comprar a Sudamerica.”
A entrevista vem provocando um verdadeiro furor nos meios turfísticos do continente.
No dia 10 de março, a Ata da primeira reunião do Comitê antes citado, presidido pelo Dr. Ignacio Pavlovsky (pai), contando com a presença, entre outros, do Dr. Horacio Bauer, presidente do importante Conselho Técnico Executivo da OSAF, dá notícias do interessante debate havido a respeito do tema medicação.
Ao abordar a questão do Lasix, Horacio Bauer comentou: “Não é que a Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH) não possa impor obrigações nem sanções pelo fato de se administrar localmente alguma medicação, senão que ao tentar competir na Europa, Ásia e África do Sul, os cavalos sul–americanos podem ver–se afetados em seu desempenho. Igualmente, a venda de exemplares sul–americanos para os mercados mencionados poderia experimentar uma diminuição em seu valor.”
Aos poucos, vão aparecendo os argumentos por detrás da recente preocupação com o uso da furosemida. E um deles, é a perspectiva de restrições do mercado importador mundial para animais originários da América do Sul.
Mais objetiva, ainda, é a posição do Dr. Ignacio Pavlovsky, uma das maiores autoridades mundiais do setor, Vice–Presidente do Conselho Técnico Executivo da OSAF, escolhido para presidir o novo Comitê argentino.
Diz o Dr. Pavlovsky: “A questão mais preocupante, e já faz algum tempo, é que os cavalos (de corrida) foram perdendo sanidade nos últimos anos, na medida em que se adotou a possibilidade de medicá–los (para correr).”
Prosseguindo, comenta estar “comprovado que os cavalos na Europa correm mais que o dobro do número de corridas dos nossos. No passado, quando um cavalo sangrava um pouco, não se tomavam medidas e eles continuavam competindo, salvo em alguns casos de hemorragia extrema; em conseqüência, havia uma seleção natural dos exemplares melhor capacitados a competir. Hoje em dia, quando os cavalos que sangram são medicados e ingressam na reprodução, o resultado é a geração de uma raça cada vez mais debilitada.”
Pavlovsky aproveita, e menciona a Alemanha como sendo o país “onde os animais são os mais sãos do mundo, não se permitindo entrar na reprodução a nenhum cavalo ou égua, que alguma vez tenha competido sob o efeito de qualquer medicação.”
Hemorragias e treinamento
Uma de suas melhores intervenções, é aquela que relaciona a possibilidade de sangramentos com o período de tempo dedicado ao treinamento diário dos cavalos de corrida.
Entre outros fatores que influem, e nos diferenciam do mercado europeu, diz ele, é que na América do Sul a forma de treinar é diferente. “No exterior, um puro sangue de corrida passa 1 hora e 45 minutos treinando (diariamente), quando aqui só o faz por alguns poucos minutos.”
Com efeito, nas clareiras de Chantilly, é comum ver–se animais rodando em fila indiana pelo menos 40 minutos antes de subir a trote por uma das dezenas de pistas da floresta; descê–la a galope, dois a dois; e retornarem à clareira, até que sua respiração volte inteiramente ao normal. Só depois disso, é que retornam às cocheiras. Com o detalhe que, à tarde, vários deles podem ser vistos passeando montados pela floresta.
Evidentemente, isso faz diferença na preparação de todo o aparelho respiratório do animal para enfrentar os rigores da competição.
Um outro aspecto interessante ligado ao tema, foi abordado pelo Dr. Gustavo Gatti, membro do Comitê, ao mencionar que, além do período dedicado ao treinamento e galopes diários, como acima mencionado, deve ser observado que, na Argentina, trabalha–se com outro ritmo, desde que os potros terminam a doma, até que corram pela primeira vez.
E se questiona, se isso se deve à falta de critério dos treinadores; à pressão dos proprietários para que seus cavalos comecem logo a correr; ou se há algum outro fator superveniente que leve vários potros a estrearem apenas 45 dias após a doma, quando ainda não se encontram suficientemente maduros para a atividade.
Hemorragias e velocidade
A correlação sangramento vs. velocidade alcançada, mais esforço realizado, também aparece nos debates como uma circunstância a agravar a ocorrência do fenômeno.
Deixemos falar quem sabe:
“O sangramento tem a ver também com a velocidade alcançada pelo animal, e o esforço que realiza. Ao efetuar a seleção de um cavalo, ou uma raça de cavalos, de alto rendimento com base (apenas) na verificação da velocidade alcançada, deve–se ter em conta que isso aumenta a possibilidade de se estar escolhendo cavalos sangradores.” (Ignacio Pavlovsky)
Sem embargo, os sangramentos são mais comuns nas provas de distâncias curtas (leia–se, o “sprint”), quando os competidores são levados a paroxismos de velocidade, e têm que manter esse ritmo praticamente durante todo o tempo.
Nesse caso, uma programação de corridas que distribua melhor e mais racionalmente as distâncias – e contenha, obrigatoriamente, um número mínimo de provas além da milha – pode, efetivamente, contribuir para mitigar a ocorrência de hemorragias.
Em suma, um treinador que mantenha seu animal no regime de galopar pouco; que o obrigue a trabalhar forte para correr; que, não satisfeito, o faça aprontar forte; e, além disso, o inscreva em provas de “sprint”, estará enviando um convite ao desastre do sangramento. E os registros dos serviços de veterinária de qualquer hipódromo, estão aí para demonstrar a consistência da tese.
Lasix e alguns mitos
Igualmente, é de grande valia constatar a troca de informações a respeito da possibilidade da administração do Lasix vir a contribuir para camuflar outras medicações proibidas, eventualmente aplicadas ao animal.
Sob este aspecto, a Dra. Patricia Porto, também membro do Comitê, ademais de especialista em controle anti–dopagem, esclarece que – diante da altíssima sensibilidade dos modernos equipamentos dos laboratórios anti–doping em todo o mundo – a hipótese não procede.
Mesmo que não se trabalhe com “limites de tolerância” (na Argentina, chamados de “umbrales”), qualquer equipamento moderno detecta perfeitamente a ocorrência de medicação proibida nos fluidos corpóreos do animal – ainda que haja a administração concomitante do Lasix. No passado, isso talvez fosse possível. No presente do turfe mundial, porém, não é mais.
Portanto, eis aí a queda de um tradicional mito a respeito da furosemida. Qualquer outro entendimento, não só implica certa desatualização a respeito, como, inclusive, passa a constituir risco intolerável para profissionais desinformados sobre a alta sensibilidade dos equipamentos de controle anti–dopagem disponíveis em nossos dias.
Lasix e mercados mundiais
Ao contrário da Europa, a administração da furosemida e da fenilbutazona, é uma prática nos EUA. Com o agravante de cada estado da União ter liberdade para decidir suas regras a respeito.
Porém, muito mais do que se possa imaginar, o turfe americano é especialmente severo com os desvios de conduta em relação à medicação proibida.
Assim, a partir de 1° de janeiro deste ano, já está autorizado o recolhimento de sangue ou urina de qualquer cavalo de corrida inscrito para correr, mesmo até 180 dias depois de sua anotação na papeleta de inscrição. Além de passar a ser obrigatório constar dos assentamentos do animal, o registro de todas as drogas por ele tomadas no transcurso de sua atividade.
Aos poucos, ainda que lentamente, vai se notando alguma preocupação, no sentido de evitar se propague mundialmente – com as dramáticas conseqüências econômicas resultantes do fato – a idéia de que quem corre na América são os remédios, não exatamente os cavalos.
Desta forma, não causaria surpresa a ninguém se, nos próximos anos – e eles podem não ser tantos assim... – também os americanos reduzissem a possibilidade de administração de drogas em seu turfe. E se isso um dia vier a acontecer, quem continuar usando furosemida simplesmente vai ficar apartado do mercado mundial do PSI.
Esta não é uma perspectiva impossível. Vejamos, novamente, o que diz o Dr. Pavlovsky:
“A movimentação de cavalos de corrida na direção da Europa é uma prática recente (do turfe mundial). Mas o mercado mais importante que deve ser levado em conta para um futuro próximo é o da China, que está construindo 8 hipódromos, e se espera terá um forte atividade de importação, já que necessitará de abastecimento de puros sangues de corrida (para formação de seus programas).”
E completa: “Adicionalmente, outro tema a se ter em conta, é que quando os cavalos viajam ao exterior, especialmente no caso de destinos com diferenças climáticas significativas, como seja do hemisfério sul para o hemisfério norte, o período de aclimatação pode tardar, no mínimo, 5 meses.”
China
A China, que hoje caminha para ser a segunda maior potência econômica do mundo (ao final deste ano, seu PIB deve ultrapassar o do Japão), já teve, no passado remoto, hipódromos e corridas de cavalo. Ainda mais, é conhecida a atração que o esporte do turfe exerce sobre os povos asiáticos, conforme dá mostra o estratosférico volume de apostas de Hong Kong, e o grande interesse pelas corridas de Macau.
Portanto, no dia em que a China ingressar definitivamente no turfe – o que se espera ocorra antes do final desta década – o que vier a valer para o turfe chinês em matéria de medicação, vai passar a valer para o resto do mercado mundial. Com mais forte razão ainda, se considerarmos que metade do turfe do mundo já não admite o uso de furosemida e fenilbutazona em seus animais.
Em linguagem direta, caso a China opte pela adoção do regime europeu de nenhuma medicação, e passe a importar somente animais livres dela, é muito improvável que os EUA permaneçam como são atualmente.
Quem consegue projetar a forma das coisas que virão – aliás, os americanos são peritos nisso – já está imaginando que conseqüências resultarão para o mercado, da entrada definitiva dos chineses no fascinante mundo do PSI.
Talvez, não tenha sido por outro motivo que o Aga Khan haja trabalhado tão insistentemente para reforçar os laços de sua “conexão chinesa”, quando abriu as portas de Gilltown a Sea the Stars, propriedade de um jovem banqueiro chinês de Hong Kong e de sua família. Nessa atividade difícil e milionária, ninguém que realmente conta pode se permitir ser desprevenido e desatento.
Algumas reflexões
Da mesma forma que o turfe argentino, nós passamos a admitir o Lasix a partir de meados da década de 1990. À época, houve grande discussão a respeito, inclusive com inevitáveis desdobramentos a separar politicamente quem era contra, de quem era a favor da medida. A esta altura, parece irrelevante estarmos a conjecturar sobre o acerto, ou não, do que foi decidido.
Mas diferentemente dos argentinos, nossa regulamentação a respeito do Lasix é bem mais rígida, não sendo possível correr com a medicação na totalidade das provas de Grupo, além do que, a sistemática e as regras de sua administração destoam bastante entre si.
Não se pretende aqui estabelecer juízo de valor sobre qual dos dois conjuntos de regras é efetivamente o melhor. A diferença fundamental entre os dois turfes não reside neste aspecto adjetivo da questão.
O conceito fundamental que parece nos separar cada vez mais, é que o turfe e a criação brasileiros têm, em boa medida, permanecido fiéis às suas origens européias.
E isso se reflete em vários aspectos da atividade, de que são exemplos: (1) a preferência pela utilização, em regime de “shuttling”, de reprodutores corridos na Europa (vide Royal Academy, Sinndar, Linngari, Shirocco, etc.); (2) o formato dos hipódromos; (3) a eleição da grama como pista de elite, e (4) chegando mesmo à estrutura da programação clássica, como ocorreu este ano no Rio de Janeiro, onde houve o cuidado de aumentar as distâncias de certas provas do calendário.
Não há nada de errado nisso. Ao contrário, nossas chances de sucesso nos confrontos com animais do exterior têm sido melhor construídas a partir de indivíduos capazes de percorrer distâncias intermediárias, dos quatro anos de idade em diante.
Não é aí, porém, que reside a principal diferença de enfoque. Hoje, a principal diferença, reside no fato do turfe argentino ter cristalizado uma nítida preferência pelas práticas, abordagens, e o modo de ser do turfe americano.
Nada mais natural. Os EUA são uma potência em matéria de corridas de cavalo, ademais de constituir um excelente mercado importador para animais criados na América do Sul.
Quem, como a Argentina, produz 8.000 potros por ano (contra cerca de 2900 no Brasil), possui 14 hipódromos em pleno funcionamento, um público apaixonado pelas corridas, detém uma tradição centenária na arte de criar, e leva extremamente a sério sua indústria do puro sangue, tem razões de sobra para saber onde estão seus melhores interesses.
Entretanto, ser parecido com alguém, não implica necessariamente vincular seu destino ao do alterego.
E é exatamente isso que os argentinos começam a perceber, quando tomaram a iniciativa de criar o Comitê Nacional de Sanidade e Substâncias Proibidas no Puro Sangue de Corridas para, através de seus 6 sub–comitês (de Furosemida, Anabólicos, Programação de Corridas, Genética, Treinamento, e Administração Terapêutica) estudar a sério de que forma vão passar a lidar, a partir daqui, com a importante questão da permissão de medicar animais em corrida.
Seria importante que fizéssemos o mesmo, e reuníssemos as principais autoridades turfísticas do país, talvez sob a égide da Associação Brasileira de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corridas (ABCPCC), para discutir de que forma podemos ajudar o turfe brasileiro a ir se preparando para a forma das coisas que virão.
Algumas observações
(i) A se concretizar a entrada da China no mercado mundial do puro sangue de corrida, e dependendo do modelo que ela vier a escolher em matéria de medicação, grandes adaptações terão que ser feitas em relação ao uso da furosemida e da fenilbutazona;
(ii) Parece razoável admitir que as melhores expectativas da criação brasileira, hoje se concentram na possibilidade de exportar bons cavalos de corrida, ao invés de direcioná–los integralmente para o mercado interno, cujas limitações, seja em matéria de prêmios, seja no que respeita à falta de organização das sociedades promotoras de corridas, são notórias.
(iii) Se isso for verdadeiro – e nada indica o contrário – não há como o país manter intocadas as atuais regras de medicação para correr.
Este é um tema que transcende as preocupações do dia a dia de nosso turfe.
A não ser que estejamos dispostos a abrir mão de um mercado exportador que consumiu décadas de investimentos e esforços para ser formado, seria razoável que passássemos a acompanhar de perto a evolução do assunto.
Como os argentinos já se prepararam para fazer.

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