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Shirocco: O sangue Monsun no Brasil, por Sergio Barcellos 07/04/2010 - 12h58min
Durante várias décadas – desde Dark Ronald e seus descendentes, de que são exemplos Herold, Prunus, Alchimist, Birkhahn, Priamos, e Oleander – os grandes haras alemães permaneceram como uma espécie de entidade autônoma no universo do puro sangue. Para eles, nunca valeram as "leis do mercado." Seu conceito de criar sempre esteve rigidamente ancorado em dois princípios: perfeição física e durabilidade.
O que, em princípio, parecia uma limitação frente aos concorrentes europeus e do resto do mundo, principalmente da América, acabou por transformar–se num dos ativos mais procurados do turfe moderno.
Perseguidos com rigor e pontualidade germânicos, os ideais da perfeição física e durabilidade se traduzem em cruzar tipo sobre tipo; descartar, de plano, o ingresso na reprodução de qualquer animal medicado quando em campanha; e privilegiar indivíduos que exibam endurance, esta última aqui entendida como a capacidade de carregar peso na distância, sem perda de eficiência. Daí porque, os ganhadores do Derby alemão constituem, para quem cria além do Reno, o cavalo de corrida ideal.
Neste início de século, a procura pelos animais construídos dessa forma, lota o recinto dos "Auktion Jährlings", de Baden–Baden, realizados na primeira semana de setembro. E nomes como os de Acatenango, seu filho Lando, Lomitas, Samum, Platini, Kallisto, Paolini, Sabiango, Subiaco, e outros, já entraram para a galeria dos reprodutores conhecidos do turfe moderno.
Quanto aos preços, bem, os preços, se comportam na razão direta do interesse de criadores de todo o mundo. Principalmente, no que se refere às potrancas alemãs. Nesse caso, a maioria dos licitantes acalenta sempre a esperança de descobrir outra Alegretta (por Lombard), criada pelo Gestut Schlenderhan, mãe de nada menos que Urban Sea (e King’s Best), portanto, avó–materna de Sea the Stars e Galileo. Nada mal.
Mas os holofotes brilham mais, e a atenção se concentra, quando entra no "ring" um produto de Monsun (Konigsstuhl e Mosela, por Surumu e Monasia, por Authi). Alemão até a medula, Monsun é atualmente uma das maiores vedetes do parque reprodutor mundial, pai de mais de 60 "stakes winners" e de 35 vencedores de provas de Grupo, até dezembro de 2009.
Quem é Monsun
O castanho escuro Monsun correu 23 vezes, dos 2 aos 5 anos de idade, para obter 12 vitórias e 6 colocações, com 1.067.000 euros em prêmios.
Monsun é pai, entre outros, da magnífica Stacelita (Prix de Diane 2009, Chantilly, por larga margem), de Duke D’Alba, de Getaway, Lauro, do excelente milheiro e reprodutor Manduro (Jacques Le Marois, Grupo I, Deauville), de Samum, Schiaparelli, Storm Trooper, Tertulius, e uma virtuosa corrente de animais basicamente sãos e de alta performance.
Seu pai, Konigsstuhl, segundo a Courses & Elevages (vide "Etalons 2009", pág.121), um "cavalo de exceção nas pistas", foi o tríplice–coroado alemão de 1979. Na criação, revelou–se um reprodutor e avô–materno de primeiríssima ordem. Como curiosidade, Konnigsstuhl está classificado como "negro", uma raridade em matéria de pelo.
Para os estudiosos do PSI, como Jean Dubois – que os franceses consideram um dos maiores "homens do cavalo" daquele país – o que Monsun transmite à sua descendência é, basicamente, "estrutura física, osso, e um belo manto castanho escuro."
Entre os melhores filhos de Monsun, se encontra Shirocco (nascido em 2001, por Monsun e So Sedulous, por The Minstrel e Sedulous, por Tap On Wood), reprodutor da Darley (leia–se, Sheik Mohammed Al Maktoum), estacionado em Newmarket, Inglaterra, cobertura a £ 10,000 na estação de monta 2010, hemisfério norte.
É este o animal que, segundo as notícias, está vindo, em regime de "shuttling", para fazer a cobertura no Brasil este ano.
Shirocco: campanha, perfil funcional, tipo físico
Shirocco – pedigree aberto até a quinta geração – correu 13 vezes em vários países e hipódromos, dos 3 aos 5 anos de idade, para obter 7 vitórias e 5 colocações.
Em 2004, aos 3 anos, foi eleito o "Champion 3–years–old" da Alemanha e Itália, tendo ganho o Derby alemão (Grupo I, 2.400 metros, Hamburgo), o GP del Jockey Club (Grupo I, 2.400 metros, San Siro, Milão), e o GP de Baden (Grupo I, 2.400 metros, Baden–Baden), entre outras provas de Grupo.
Em 2005, aos 4 anos, atravessou o Atlântico, e venceu em grande estilo a Breeders’ Cup Turf (Grupo I, 2.400 metros, Belmont Park), batendo a Bago e Azamour (este último reprodutor do Aga Khan na Irlanda, 15.000 euros a cobertura). No primeiro domingo de outubro, havia sido quarto no Prix de l’Arc du Triomphe (Grupo I, 2.400 metros, Longchamp, para Cherokee Run).
Em 2006, aos 5 anos, prosseguiu em campanha, atravessou o Canal, e levantou a tradicional Coronation Cup (Grupo I, 2.400 metros, Epsom, derrotando a Ouija Board); foi à Itália, e bisou a vitória no GP del Jockey Club; finalmente, em Longchamp, França, ganhou o Prix Foy (Grupo II, 2.400 metros, devolvendo a Cherokee Run a derrota sofrida no Prix de l’Arc).
Em resumo, Shirocco foi um freqüentador assíduo da primeira turma das pistas do hemisfério norte, cotado a 129 libras–peso (cerca de 64,5 quilos) pelo "Timeform–Racehorses of 2005." Ao retirar–se das pistas, foi eleito "Champion Older Male" (melhor cavalo de idade) da Europa.
De suas performances, três se destacam: a vitória no Derby alemão, numa pista de grama encharcada(íssima!), quando correu terceiro e venceu por vários corpos; na Breeders’ Cup Turf (correu em segundo, e tomou a ponta no início da curva); e na tradicional Coronation Cup, Epsom, atuando praticamente de ponta a ponta, e negociando muito bem todas as conhecidas dificuldades daquele percurso.
Acerca de seu perfil funcional, lê–se: "Inteiramente adaptado à distância clássica, corre entre os ponteiros, e sua "troca de marcha" é extremamente efetiva. Genuíno e consistente." (vide "Timeform–Racehorses of 2006").
Fisicamente, seu modelo é o típico dos melhores cavalos alemães da linhagem Konigsstuhl–Monsun: castanho, alto, equilibrado, ótimos aprumos, excelente diâmetro da canela, ventre longe do chão, expressiva cabeça, dorso de tamanho normal.
Seus primeiros produtos levados a leilão na Europa, alcançaram a média de £ 56,000 (hoje, cerca de US$ 90,000).
Shirocco, Monsun e o Brasil
Afinal, parece ter chegado a hora de incorporar o sangue Monsun, via Shirocco, à criação brasileira. Especialmente, no que se refere à possibilidade da geração de fêmeas, mais um ativo a enriquecer o plantel de matrizes do país.
Novamente, são os criadores nacionais que, apesar de todas as dificuldades, dão mostras de sua enorme confiança no futuro do turfe entre nós.
A observação a fazer, é que animais dessa estirpe e com essas origens, tendem a exigir alguma dose de paciência por parte de seus responsáveis, para que consigam expressar, em toda sua plenitude, o potencial que deles se espera.
Em outras palavras, não é da natureza dos Monsuns–Shiroccos serem especialistas da velocidade pura, muito menos terem sido concebidos para estrear em janeiro–fevereiro de seus 2 anos, no auge do verão dos trópicos, correndo 1.000 metros...
E se isso vier eventualmente a ocorrer, deve ser levado em conta que eles estarão apenas expressando qualidade – uma característica comum aos bons cavalos de corrida –, sem que daí se possa concluir ter havido uma mudança radical em sua forma de atuar, pelo simples fato de terem sido gerados aqui.
Resumindo, os melhores Monsuns podem ser velozes, como são Stacelita (que, inclusive, corria na anca do "cheval de jeu"), e Manduro, ambos ganhadores de Grupo I em distâncias, entre a milha (no caso de Manduro, aos 5 anos de idade), e os 2.100 metros (no caso de Stacelita, aos 3 anos). Mas não se trata de "sprinters" na acepção do termo.
Em uma tentativa corajosa de simplificação, suas origens e seu perfil funcional se adaptam melhor a quem cria para correr – e, como tal, alimenta a esperança de poder disputar Derbys, Dianas, e os confrontos clássicos de peso por idade, a partir dos 4 anos.

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