



Colunista:
Tudo sobre Hard Buck, por Sergio Barcellos 07/08/2008 - 20h03min
HARD BUCK
Castanho, nascido em 03.11.1999 Criação do Haras Old Friends,
Brasil
Introdução
Há alguns detalhes importantes em Hard Buck que convém ter em
mente. Como se segue:
(i) Aos 2 anos de idade, alguns críticos o achavam demasiadamente
"feminino". Tal impressão tinha muito a ver com sua conformação física leve e elegante, ademais do fato
de ser "mal nascido" (produto de novembro). À medida que foi se desenvolvendo e tornando adulto, a
suposta "feminilidade" deu lugar a um indivíduo de grande presença, estereótipo do animal que os
ingleses chamam de racing like, onde se destaca a qualidade de sua cabeça.
(ii) Nada de novo: Hard Buck é
um cavalo típico dos representantes da linhagem Tom Fool (Menow e Gaga, por Bull Dog, sendo este um filho de
Teddy). Seu mensageiro mais ilustre, o esplêndido Buckpasser, sempre se destacou pela elegância dir–se–ia européia
do modelo, em oposição ao ideal de robustez física do cavalo de corrida criado nos EUA.
(iii) Nos anos
de 2002/2003, aos 3 anos de idade, no Hipódromo Brasileiro, Hard Buck saiu 9 vezes à pista, para ganhar
em 5 oportunidades e ser segundo na milha do GP Estado do Rio de Janeiro (Grupo I, primeira prova da
tríplice–coroa de produtos). Antes disso, já havia vencido os 2.000 metros do GP Linneo de Paula Machado (Grupo
I). À época, foi considerado por turfistas, profissionais e a crônica como animal de alta performance, líder
inconteste de sua geração na Gávea. Naquele mesmo ano, foi negociado para o exterior por expressiva
soma.
Campanha no exterior e origens
No exterior, Hard Buck confirmou todas as
expectativas e o investimento de seus novos proprietários, viajando e atuando com sucesso em vários hipódromos e
países – com o detalhe de estar sempre se medindo contra a elite do turfe mundial de seu tempo.
De todas
suas atuações, porém, ganha relevo o ótimo segundo lugar obtido no King George & Queen Elizabeth Stakes (Grupo
I, 2.400 metros, Ascot), um dos testes supremos do centenário e competitivo turfe inglês. Importante mencionar que
nenhum animal nascido e criado no Brasil jamais havia ousado tanto.
O juvenil mal nascido, dito
"feminino" aos 2 anos de idade, e iniciado com grande paciência no Centro de Treinamento Verde e Preto,
em Teresópolis, RJ, havia amadurecido e se transformado num brilhante atleta de nível internacional.
Filho
de Spend a Buck e Social Secret, por Secreto e Expediency, por Vaguely Noble e Gazala, o mínimo que pode ser dito
de Hard Buck é que ele nasceu na púrpura.
Seu pai, Spend a Buck, é ganhador do Arlington Washington
Futurity. O avô–materno, o pequeno Secreto, venceu um épico Derby de Epsom sobre El Gran Señor por diferença
mínima, onde coragem, determinação e will to win fizeram toda a diferença. Seu bisavô–materno, Vaguely Noble – um
descendente de Aureole, vencedor do GP Arco do Triunfo sobre Sir Ivor (Grupo I, 2.400 metros, Longchamps) – é
responsável na reprodução por 12 ganhadores de Grupo I e de craques como Empery (Derby de Epsom), Dahlia (King
George VI & Queen Elizabeth Stakes), e Nobiliary (segunda no Derby de Epsom). Finalmente, Gazala, ganhadora do
CCA Oaks americano, Champion Filly de sua geração, gerou Mississipian e o nosso conhecido Youth.
A análise
do pedigree de Hard Buck, indica que sua linha baixa é toda ela construída sobre animais que tinham a distância
clássica. O próprio Secreto descende de Betty Lorraine, mãe do alazão Caracolero, propriedade de Maria Felix
Berger (a "Maria Bonita"), ganhador do Prix du Jockey Club (Grupo I, Derby francês, então disputado em
2.400 metros, Chantilly).
Isto serve para explicar como foi possível ao cavalo criado pelo Haras Old
Friends evoluir de um perfil funcional de milheiro aos 3 anos, no Brasil, para animal perfeitamente adaptado à
milha e meia aos 4 anos de idade, na Europa.
Aparentemente, foi com base em seu sangue materno que Hard
Buck correu com absoluta distinção os 2.400 metros do King George VI & Queen Elizabeth Stakes na difícil pista
de Ascot (cerca pela direita, percurso total de 2.800 metros em formato de triângulo, acentuado declive dos 1.700
metros até a última curva, e reta final de 500 metros em ligeiro aclive até o disco).
Para os ingleses, a
milha e meia na grama de Ascot, principalmente se a raia está macia ou pesada (o que, em se tratando da
Inglaterra, normalmente ocorre), constitui um severíssimo teste para qualquer cavalo de corrida – e põe um prêmio
à endurance do animal. Além de consagrar os grandes "galopadores", assim entendidos como aqueles capazes
de exibir a virtude excelsa de colocar perfeitamente suas diagonais sem se desequilibrar (no jargão inglês, os
good movers).
A viagem de Tom Fool a Hard Buck
O americano Tom Fool, nascido em
1949, e vendido ainda yearling à coudelaria Whitney (Greentree Stud), era originário da famosa sequência
Phalaris–Pharamond–Menow. Tom Fool é considerado um dos pilares das grandes linhas masculinas que separam o
puro–sangue de corridas de nossos dias de seus ancestrais do século XIX.
Menow, seu pai, foi o melhor 2
anos de sua geração na América. Pharamond, pai de Menow, criação de Lord Derby, é irmão–materno de Hyperion, ambos
descendendo da notável Selene. Gaga, mãe de Tom Fool, já havia produzido antes dele a Aunt Jinny, Two–Years–Old
Champion Filly de sua geração. Em termos de ascendência, o cavalo dos Whitney era 50% europeu, eis que Gaga é
filha do francês Bull Dog, este um autêntico Teddy. O “caráter europeu” é bem visível em Tom Fool, animal de uma
distinção ainda hoje pouco habitual no turfe americano.
Tardio, Tom Fool não se destacou aos 2 anos, embora
tenha vencido o Futurity Stakes. Aos 3 anos, ganhou quatro bons Handicaps. Aos 4 anos, porém, terminado seu
processo de amadurecimento, revelou–se: venceu o Metropolitan Stakes (primeira prova do que é considerada a
tríplice–coroa dos cavalos de mais idade), o Suburban Handicap em 2.000 metros (segunda prova), e o Brooklin
Handicap (terceira). Nas quatro corridas seguintes, levantou com esmagadora superioridade o Wilson e o Whitney
Stakes, o Sisonby Handicap e o Pimlico Special Stakes, sua última apresentação, tendo baixado o recorde dos 1.900
metros da pista de Pimlico. Ao final da temporada de 1953, o filho de Menow foi eleito Horse of the Year, Champion
Handicap Horse, e Champion Sprinter.
A carreira de reprodutor de Tom Fool confirma sua qualidade nas
pistas. Em sua primeira geração no haras produziu os campeões 2 anos Jester e Tim Tam. Nas seguintes, a Tompion,
Silly Season, Cyrano e Dunce.
Finalmente, com Busanda, por War Admiral, gerou sua obra–prima:
Buckpasser.
“O cavalo com que sonha todo proprietário”, segundo Renom de Gasté, saiu às pistas 31 vezes,
dos 2 aos 4 anos de idade, para ganhar 25 corridas e ser segundo em 5 delas. Foi o primeiro potro de 3 anos nos
EUA a bater a barreira do US$ 1 milhão em prêmios; estabeleceu um novo recorde mundial para a milha no Arlington
Classic; e ingressou na reprodução (sindicalizado pela Clairborne Farm) pela soma, também recorde para a época, de
US$ 4,800,000.
Buckpasser e a criação
É natural que de um indivíduo tão brilhante
nas pistas todos esperassem feitos no mínimo históricos. No haras, Buckpasser produziu 8 ganhadores de Grupo I,
entre eles duas extraordinárias potrancas: a invicta La Prévoyante (14 corridas, 14 vitórias) e Numbered Account
(campeã de sua geração).
Mas foi exatamente sob este aspecto – o de gerar fêmeas excepcionais – que
Buckpasser mais se notabilizou, entrando para a galeria dos maiores avós–maternos de todos os tempos do turfe
contemporâneo, considerado os dois lados do Atlântico.
Suas filhas produziram cavalos de exceção de nosso
tempo, como Believe It, Coastal, Try My Best, Plugged Nickle, Private Account, Wavering Monarch, Slew OÂ’Gold, El
Gran Señor, Miswaki, e Dance Number, apenas para citar alguns deles.
Para efeito desses comentários,
entretanto, interessa saber que entre os melhores filhos de Buckpasser, ainda que não tenha vencido prova de Grupo
I, se encontra Buckaroo (Saranac Stakes, Grupo II, 1.600 metros, e Peter Pan Stakes, Grupo III), pai de Spend a
Buck (Arlington Washington Futurity), reprodutor no Brasil – este, por sua vez, pai de Hard
Buck.
Temperamento, modelo, e perfil funcional da linhagem Buckpasser
Considerado
um cavalo de temperamento “frio”, Buckpasser reproduz na criação as características genéticas da “raça Tom Fool”,
cujas maiores limitações são o estilo calmo, profissional e mecanizado que imprime aos seus
descendentes.
Mais elegantes que massivos, a antítese da robustez rude, geralmente castanho–escuros, leves,
dorsos longos, ventres longe do chão, cabeças esculpidas, equilibrados e racing like em essência, os
representantes de Buckpasser não costumam chamar muito a atenção quando levados, ainda yearlings, ao
ambiente dos leilões.
Neles, de maneira geral, o que importa é o refinamento do modelo. Sua elegância –
para alguns críticos, refinada demais – vai se transformando aos poucos com o início do treinamento e a rotina
diária dos exercícios, sem nunca, porém, perder a forma original.
Assim, ninguém deve esperar de um
autêntico Buckpasser que ele se assemelhe aos juvenis precoces e velozes, cuja estrutura muscular mais
desenvolvida é perceptível a olho nu. Isso, porém, não os impede de correr aos 2 anos, embora sejam melhores à
medida que a idade avança e seu desenvolvimento físico se completa.
Afinidades de
sangue
Sem embargo, para quem não aprecia toda esta finesse em matéria de modelo, e tende o mais
das vezes a confundi–la com fragilidade – e eles parecem ser muitos entre nós... – restará sempre a possibilidade
de “misturar” o sangue dos descendentes de Buckpasser com o de outras linhas masculinas cuja característica
principal é a natural “excitação” que grava o puro–sangue de corrida.
Tampouco, há novidade nisso. Foi
exatamente o que fez “Bull” Hancock, da Clairborne Farm, ao perceber que o brilhante e temperamental Nasrullah (um
borderline para a maioria dos observadores) seria o cruzamento ideal para as mães descendentes do calmo, frio e
aristocrata Princequillo, este sim, um príncipe europeu sob qualquer ângulo que se examine. O resultado não se fez
esperar: produtos de filhos, ou netos, de Nasrullah com mães descendentes de Princequillo revolucionaram o
panorama do turfe americano. O mesmo exemplo se repete com Nijinsky (também de difícil temperamento, dito highly
strung) que “misturava” muito bem com as mães descendentes de Teddy, outro conhecido plutocrata do Velho
Mundo.
Entre nós, os irmãos Nelson e Roberto Seabra – criadores de animais que mudaram definitivamente o
padrão de qualidade do turfe brasileiro – sempre perseguiram em toda a existência do Haras Guanabara o que se
denomina de “choque híbrido”. Não parece ter sido por outro motivo que destinaram uma self made woman argentina,
Empeñosa, ao elegante e refinadíssimo Coaraze, filho de Tourbillon e Corrida (uma descendente da fundamental
Zariba), outro nobre francês da melhor estirpe, para obter o belíssimo e espetacular Emerson.
No caso dos
descendentes de Buckpasser, parece razoável anotar que eles “misturam” excepcionalmente bem com as descendências
de Northern Dancer, Native Dancer e Intentionally, este último um Man OÂ’War – War Relic, linha masculina
11–A, pai de In Reality, e avô de Known Fact. A simples análise das origens dos grandes ganhadores internacionais
produzidos pelas filhas de Buckpasser mostra isso. Como se segue:
Dance Number (por Northern
Dancer) Slew OÂ’Gold (por Seattle Slew – linhagem Nasrullah) El Gran Señor (por Northern Dancer) Believe
It (por In Reality – linhagem Man OÂ’War) Coastal (por Majestic Prince – linhagem Native Dancer) Try My Best
(por Northern Dancer) Miswaki (por Mr Prospector – linhagem Native Dancer)Wavering Monarch (por Majestic Light
– Native Dancer)
A propósito, o próprio Hard Buck foi construído desta forma:
neto de Buckpasser
(Spend a Buck), em mãe neta de Northern Dancer (via Secreto), como já discutido anteriormente.
É evidente
que existem outras possibilidades de cruzamento para Hard Buck. Dado que o puro–sangue inglês é um híbrido, e como
tal sujeito à aleatória química dos genes, o leque de possibilidades pode se ampliar praticamente ao infinito. Não
custa nada, entretanto, copiar o que já deu certo em outros turfes mais desenvolvidos. Poupa–se tempo e
dinheiro.
Final
O plantel de éguas da criação brasileira oferece a Hard Buck as
mesmas vantagens comparativas desfrutadas por seus ancestrais ilustres nos Stud Books do hemisfério norte. Entre
nós, há várias matrizes descendentes das linhagens Native Dancer, Northern Dancer e, em menor quantidade, de
Intentionally.
Usá–las com Hard Buck parece ser a primeira e mais óbvia alternativa.

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