



Colunista:
O sol também se levanta, Luis F. B. dos
Santos 11/06/2008 - 17h15min
O SOL TAMBÉM SE LEVANTA (Ernest Hemingway)
Quantas
perdas temos tido nos últimos dias? Nenhuma delas foi capaz, nem de longe, de me abalar tanto quanto a do Zig:
homem discreto, simples, educado, apaixonado, culto, perfeccionista, solidário, inteligente, idealista, guerreiro
e, acima de tudo, amigo irreparável dos que, ao superarem sua timidez, acessavam um ser humano
ímpar.
Tive o privilégio de conviver com ele nos últimos três anos. Creio que não houve dia, fora
feriados, Carnaval, Natal, em que não tivéssemos conversado ao menos uma vez, ainda que para um simples
cumprimento ou gozação. O normal, contudo, eram, no mínimo cinco ligações por dia. Quantas foram as reuniões e os
almoços na Churrascaria Majórica para examinarmos questões do Raia Leve...
Zig, amante dos esportes e
das pessoas, tinha duas paixões especiais: o Fluminense e o turfe. Iniciado em sua carreira profissional pelo
nosso Marco Aurélio Ribeiro, ingressou diretamente no jornalismo turfístico, onde aliou o interesse e o
conhecimento que já tinha pelos PSI com o talento incrível para escrever: precisão com emoção. Para mim, que lia,
via e ouvia o João Saldanha desde menino, só consigo me lembrar do João Sem Medo, em termos de talento
jornalístico na área desportiva, como comparável ao Zig.
Para infelicidade do Zig, a de tantos que
poderiam receber lições através de sua pena, sua crônica cobria o turfe. Ah se fosse o futrebol! Podia ser o
automobilismo, o vôlei, o basquete, o futsal, o surf, o pôquer, até o bilhar, pois todos esses esportes tem hoje,
no Brasil, visibilidade maior do que a do turfe. Aí, ao invés de apenas nós conhecermos o talento do Zig, todo o
Brasil o conheceria. Na TV, nos últimos anos, apenas quando ia a São Paulo. No JCB, na era do ex–presidente, lhe
foi imposta severa censura, inclusive na rádio. Com a mídia impressa reduzindo ao mínimo o espaço para nossa
atividade, sobrou–lhe, por certo tempo, um único canal: o Jornal do Turfe. Lá escreveu crônicas inesquecíveis na
sua coluna semanal “200 finais”. Há quase três anos, como redator–chefe do Raia Leve, pôde brindar os
turfistas–internautas, com matérias, editoriais, artigos, enquetes e comentários das programações da Gávea com sua
competência e acurado senso de humor.
Algumas vezes, lhe pedia “mais pimenta” nas enquetes,
especialmente às vésperas da última eleição no JCB, afinal matéria–prima não lhe (nos) faltava. Assumo
integralmente a culpa, registrada por alguns no “Espaço do Leitor” do Raia Leve, tribuna livre do site, pelos
excessos cometidos em favor da campanha do Cláudio Ramos. O Zig, com sua paciência e não–subserviência evitou
coisas piores. Quando não conseguia diretamente, utilizava a consideração que sabia que eu tenho pelo Cláudio,
pelo Junior, pelo Gilberto, pelo Luiz Edmundo, fazendo–os instrumento do bom–senso. Foi assim, por exemplo, na
noite do sábado seguinte a nossa incrível derrota de 28 de maio. Ao agir com sua perspicácia evitou que
lançássemos enquete, usual no meio político, especialmente nos Estados Unidos, mas que poderia afastar o site de
sua função precípua de defender e divulgar o turfe. Em todo o período que mantivemos tão estreita relação, nunca
tivemos uma única discussão ou aborrecimento mútuo.
Acompanhei e dividi com ele preocupações acerca do
futuro do Raia Leve pós–eleição no JCB. Em suma, procurávamos solução para que, qualquer que fosse o resultado o
Raia Leve não “saísse do ar”. O sucesso do site fez com que aparecessem alternativas seguras para tanto. Nos
últimos dias, a questão não era mais continuar ou desistir, mas a quem conceder a responsabilidade de conduzir o
site. Afinal, bater a barreira de 2.700 acessos em um único dia, em nosso setor, era missão impossível.
Sábado, estava dormindo quando ele chegou na minha casa. Esperou que acordasse pois
queria rever comigo uns valores para deixar tudo certinho. Depois, por telefone, conversamos mais 3 ou 4 vezes.
Domingo, ao conversar com ele, pouco antes do primeiro páreo da Gávea, o senti fraco. Perguntei se estava bem e
ele me disse que achava que estava ficando gripado, sem energia. Segunda pela manhã, toca o celular e vejo (!) que
era o número do Zig. Mas não era ele na linha. Seu filho Alexandre me ligava para dizer que o pai passara mal na
noite anterior e fora internado. Em princípio, crise de hipoglicemia. Nada de demais. Porém, logo após o almoço
recebo ligação aflita do Luiz Edmundo: – a situação do Zig é crítica. Tentei tranqüilizá–lo com as notícias que
tinha pois falara novamente com o Alexandre pouco antes. Infelizmente, o Capitão estava certo: o Marco Aurélio já
estava no hospital e recebera a informação diretamente dos médicos de que o Zig só conseguiria resistir por mais
algumas horas. Como tinha viagem marcada paro o exterior na terça, estava com vários compromissos na segunda.
Procurei dar conta o mais rápido possível e fui ao hospital. De pronto, encontrei o Marco Aurélio: estava
inconsolável, pois acabara de ver o Zig no CTI. Toda a família estava perplexa e “em choque”. Ao sair para a AGE
da nossa Associação, na qual abordaríamos inclusive o futuro do Raia Leve.
Ao chegar no Photochart
encontrei os muitos sócios presentes abalados. Não havia notícia boa a ser dada. Dentro do possível, cobrimos a
pauta da AGE, embora tenhamos decidido só deliberarmos algo em nova reunião, marcada para a manhã do último sábado
de junho. Concentramo–nos em examinar o futuro do Raia Leve. Chegamos a uma espécie de pacto para não deixar a
“peteca cair”, não deixar o sonho do Zig, que se tornou de muitos nós, acabar. Fala–se que não existe ninguém
insubstituível, mas, todos sabemos, que nesse caso o Zig será a exceção. Caberá aos que desejam a sobrevivência do
site apoio redobrado. Talvez, o Zig estivesse pressentindo que a hepatite C que o atormentava há anos, estivesse
pronta para o ataque final. Na quinta–feira passada, ao conversar com o Marco Aurélio pediu a ele, exatamente, que
“não deixasse a peteca cair”. Mas por quê: o Zig descorreu. Na sábado cedo, me visitou para verificar as contas do
site e lembrar que o computador da Associação estava em sua casa e que o antigo devia estar no escritório de minha
cocheira. Escrevo com o avião em velocidade cruzeiro, a grande altitude. Não estarei presente
ao enterro do querido amigo. Mas aqui em cima, sinto ele perto de mim. O Zig só pode estar no céu, torcendo por
nós. De lá acompanhará, pode ser, mais algumas derrotas políticas de nosso grupo. Isso não o agradará, mas há uma
coisa que tenho certeza o entristecerá bem mais: ver a união do nosso grupo se desfazer.
Em seu nome e
de sua obra vamos deixar a vaidade que cada um de nós tem de lado; vamos deixar o orgulho que todos temos
guardado. Vamos deixar fora a preguiça (não encontrei palavra melhor mas não era bem essa que desejava usar) na
luta por um turfe melhor para todos! Vamos nos tornar pessoas melhores. Talvez essa seja a única forma de
compensarmos a perda do Zig para o Raia Leve, para o turfe e para os nossos corações.
Quem sabe o “sol
também se levantará”, em breve, sobre o turfe carioca. Afinal anoiteceu há 8 anos e o amanhecer não deve estar
longe!
Zig, como sempre, mais um pedido: nos dê mais força e luz para que participemos desse novo tempo.
Obrigado por tantas coisas boas,
Luis Felipe Brandão dos
Santos Presidente em exercício da ACPCPSI

[ Escolher outro colunista ]


|