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Colunista:

Obtusidade Córnea, por Renato Gameiro
08/05/2008 - 18h08min

Obtusidade Córnea 

Hoje qualquer um tem um blog, ou mesmo uma página na internet defendendo ou vendendo esta ou aquela idéia que lhe parece genial. Se tornou tão fácil fazê–lo, quanto imperioso realizá–lo, que creio que se vovó Adelina estivesse viva, faria também o seu com suas célebres citações e bombásticos comentários. Esta é a verve atual. Expelir opiniões. Descobrir novamente a pólvora, agitar com as massas.

Ao contrário da dieta ou da necessidade de se criar algo realmente de melhoria pública, como o político brasileiro, o dono do blog ou da página especializada, se habitua, se vicia a repetir asneiras até que, para ele, estas asneiras passam a soar como verdadeiras bíblicas. Dignas de fazerem parte das tábuas de Moisés! No turfe, estes blogs e páginas se multiplicam numa insanidade coletiva, pois nada me parece mais fácil do que opinar sobre cavalos de corrida, seus pedigrees e suas atuações. Afinal existe algo mais subjetivo do que o pedigree de um cavalo de corrida? Da onde vem a força? Do pai? Da mãe? Da décima quarta avó? E aquele imbreeding? Seria ele a razão do sucesso de determinado elemento? Nick? O que é isto? Nome de gente? Mas por incrível que pareça existem coisas ainda piores do que estas. Aqueles para chamarem a atenção de um blog de corrida acusam cavalos de bom padrão de serem matungos. Isto chama a atenção. Você escreve que o Itajara é craque, pouca gente presta a atenção. Mas se você diz que ele, a Emerald Hill, o Duplex e o Much Better eram cavalinhos que não ganharam de ninguém, imediatamente uma multidão baba a espuma de ódio.

E dentro destas coisas de um anacronismo insuportável deparo com despropérios de perceptível crueldade. Como por exemplo as entrevistas de certos candidatos a presidência de Jockeys Clubs? Há de se convir, até entre aqueles dotados de espessas ingenuidades hereditárias que o brasileiro que resolve entrar na política seja no Planalto ou no Hipódromo da Gávea ele automaticamente se torna o mais prolixos dos seres humanos. Qual um prefeito de cidade pequena do interior nordestino, ele se imbui na capa do inimigo mortal da simplicidade. Complica mais do que simplifica e afirma coisas que nada têm a ver, pelo simples fato que necessita, como o ar que respira, de expressar sua opinião. Aquilo que está lá no fundo de seu cérebro e ele anseia que seja de domínio público.

Certas páginas da internet relativas ao turfe me fazem lembrar a rádio do Ministério da Educação em meus tempos de estudante. Ninguém a ouvia. Ninguém a sintonizava. Mas existia. Existia e chiava. Falava para um multidão vazia, inabitada, como as do cume do monte Everest. De vez em quando um se arriscava a ir lá e então descobria que nada tinha a ganhar e voltava imediatamente. Muitas das atuais páginas turfísticas são completamente vazias de sanidade mental e embasadas elucubrações que fariam o bestial Nero ter orgasmos de felicidade em sua cova. Ele agora teria certeza que acabara com a humanidade!

Será que as pessoas não têm algo a dizer que realmente some? Poderiam as pessoas que têm o conhecimento, não possuírem a capacidade ou os meios de criar suas próprias páginas e blogs? Ou pelo menos deixarem de dizer absurdos nos órgãos de informações? Vocês naturalmente têm ciência, pois houve uma verdadeira grita a respeito de um comentário no Jornal do Brasil saído há poucos dias sobre a possível “perda de expressão do turfe em todo o mundo”. Primeira pergunta. De que mundo estamos falando? Pois, no meu não vejo queda. Quase 160.000 pessoas estavam na semana passada em Churchill Downs. Qual o jogo de futebol, hoje, que pode atrair semelhante público? Talvez a próxima afirmativa deste senhor seja “o futebol está morto”! E as provas milionárias? Alguém seria capaz hoje enumerá–las de cor? Impossível. São dezenas e espalhadas por aquele mundo ao qual este senhor parece não conhecer ou simplesmente tenta ignorar. Que absoluta falta do que dizer. Creio que este senhor não nasceu para satisfações completas ou é dotado de uma obtusidade córnea que o levará a uma pétrea cegueira.

Todos têm o direito inalienável de emitir aquilo que sentem ou pensem. Da mesma forma que o resto da humanidade tem o mesmo direito de discordar ou mesmo criticar sobre o que foi dito ou mesmo publicado. Isto separa os homens das bestas com cordas vocais. Por isto nos consideramos humanos. Desconfio dos veementes, mas desconfio ainda mais daqueles que jogam ao ar frases descabidas e que podem prejudicar em muito a respeitabilidade de qualquer atividade. Pensei até em relevar e fingir que não tinha lido. Mas não deu. Passou dois dias e eu resolvi colocar estas linhas no papel.

O turfe brasileiro está estagnado, mas felizmente não seus criadores, proprietários e profissionais. Aquele dirigente que não acreditar nisto, deveria tentar outra coisa, como pólo aquático ou bocha. Temos mais de uma dúzia de cavalos brasileiros que ganharam provas de graduação máxima nos Estados Unidos. Pela primeira vez, ganhamos um Derby na Argentina. Vendemos a sete dígitos cavalos para Dubai, mesmo não ganhando até o presente momento uma única prova sequer no Festival. O que mais perto chegou foi Hard Buck, com aquele seu segundo lugar a focinho na prova de grama. O mesmo Hard Buck que foi o único cavalo sul–americano a ser segundo no King George VI Queen Elizabeth Stakes. Então, o que ele fez não valeu nada? Foi obra de uma alucinação politicamente incorreta? Será que meus sonhos, não passam de sonhos? Sonhei acordado e tudo não passou de um grande nada colorido?

E o senhor Carvalho, qual uma árvore perdida dentro de uma imensa floresta pensa em perdas de expressão! Que baixo astral? Isto me lembra aquele personagem do Hanna Barbera, a hiena de chapéu batizada como Hardy Ha Ha. “Que dia... que mês ... que ano... nunca sairemos vivos daqui!”

Pessoas como estas que me fazem discordar do Nelson Rodrigues. Eu prefiro desconfiar de todo mundo do que ser traído. E o turfe brasileiro pode ser mais uma vez traído. Abram o olho!

por Renato Gameiro



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