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Setembro | 2011

EDITORIAL
15/09/2011 - 14h11min

Lagardère e a revolução do Turfe francês

Ele era engenheiro por formação, casado com brasileira, agraciado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo governo do país, e construiu um império industrial que incluía a Matra, empresas aeronáuticas, de defesa, a tradicional editora Hachette, e vários outros empreendimentos.

Mas sua grande paixão sempre foram os cavalos de corrida.

Em 1967, começou comprando uma potranca nos leilões de Deauville , Reine des Sables, boa ganhadora, que veio a se tornar avó de Restless Kara, vencedora do Diana francês de 1988. Em 1969, adquiriu sua primeira égua-mãe, Lutine, futura avó de Linamix, que ele instalou em seu haras de Val Henry, na Normandia, criado em 1967.

Em 1981, após a morte de François Dupré, incorporou o histórico Haras d’Ouilly a Val Henry. Sua admiração pela criação Dupré era tanta, que, em 1986, adotou nas pistas as mesmas cores dos soberbos animais Dupré: cinza, boné rosa.

Cerca de vinte anos depois de ter começado Val Henry, em 1988, Jean-Luc Lagardère tornou-se o número um dos criadores franceses, estatística que ele venceu onze vezes. Em 1995, realizou, afinal, seu grande sonho de éleveur: Linamix, ganhador clássico em 1990 (Poule d’Essai des Poulains), produziu em seu primeiro ano de monta a um outro vencedor de Grupo I, a excelente milheira Miss Satamixa (Prix Jacques Le Marois, linha reta, Deauville). Miss Satamixa foi o sinal de que seu pai, construído inteiramente por Lagardère, iria se transformar em um dos melhores reprodutores já nascidos e criados em solo francês. Ao saber, chamam de sorte...

Ao ser indagado a respeito do tempo e dos investimentos despendidos para consumar este sonho, Lagardère explicou:

Eu diria que é mais fácil ser o número um no campo tecnológico, que ser o mesmo como criador de cavalos de corrida. No domínio da tecnologia, os imponderáveis são menores que na criação. Nesta, o trabalho de planejar cuidadosamente os cruzamentos, e o sucesso que daí pode eventualmente advir, resulta sempre de uma espécie de delicado equilíbrio entre o fruto do que imaginamos e daquilo que realmente ocorre. Refletir, observar, e observando, poder repensar, é um excitante jogo de paciência com a natureza.

Dirigente e grande renovador do turfe francês

O ano de 1995, foi também o da eleição de Jean-Luc Lagardère para comandar a France Galop, a entidade máxima do turfe do país, que vivia, à época, uma de suas maiores crises. Aos 67 anos, este homem calmo e silencioso – sempre disposto a ouvir mais do que falar –, mas  um observador atento do que ocorria na atividade e impedia seu desenvolvimento, disse em seu discurso de posse:

Não aceitei este mandato para gerir um declínio julgado inexorável.

Prosseguiu:

Meu único credo, e minha única certeza, é que as corridas representam um fantástico capital. E este empreendimento não somente pode ser redesenhado, como melhorado, desde que falemos a mesma linguagem, e expressemos, todos, a mesma inabalável vontade de mudar o atual estado das coisas.

E concluiu:

Para isso, é fundamental que nos deixemos levar pela mesma paixão em relação àquilo a quem, a partir desse momento, desejamos servir: o turfe da França.

Foram cinco as grandes vertentes que perenizaram a atividade, e produziram uma verdadeira revolução no turfe do país:

1. Aproximar o turfe do estado francês, mostrando às autoridades governamentais quão importante era: primeiro, a geração de empregos e, segundo, o recolhimento de impostos proporcionado pelas corridas de cavalo (hoje, a atividade é responsável por 66.000 empregos diretos, quase o dobro disso se considerarmos as atividades colaterais, e o recolhimento de mais de 1,2 bilhões de euros/ano entre impostos e taxas);

2. Reconciliar as corridas rasas com o trote, que alguns, equivocadamente, haviam colaborado, durante anos, para separar;

3. Descentralizar a atividade, com a criação de pólos regionais, na Normandia e no sul do país, prestigiados e protegidos politicamente pelas prefeituras locais (antes dele, o turfe francês estava praticamente concentrado em torno do centro de treinamento de Chantilly e dos hipódromos das cercanias de Paris);

4. Transformar o jogo de apostas em corridas de cavalo em algo nacional e simples, reformando de cima a baixo a estrutura e os métodos de um adormecido e letárgico PMU – Pari Mutuel Urbain, até torná-lo um poderoso e dinâmico instrumento de captação de novos recursos para a indústria do puro sangue (hoje existem 11.000 agências credenciadas de apostas do PMU na França, cobrindo todo o território do hexágono, e o investimento em apostas via INTERNET é mais que significativo).

5. Fazer com que as corridas penetrassem em todas as camadas da população através da televisão, criando com isso uma nova audiência e um novo público para o turfe, sem menosprezar seu público tradicional, que ele fez retornar em massa aos hipódromos, cuidando e modernizando suas instalações.

Nenhuma decisão a respeito da evolução do dia a dia desse programa, jamais foi tomada por Lagardère sem consulta a todos os interessados envolvidos no turfe francês, e discutindo com eles cada novo passo a ser dado.

Como também, nenhuma mudança foi implementada, sem antes debater exaustivamente o assunto com os "Comitês Técnicos" de criadores, proprietários, e profissionais da atividade, criados por ele na estrutura da France Galop (e que funcionam até hoje).

Fazia parte de sua personalidade calma e equilibrada, incentivar o debate e reunir em torno de si as melhores cabeças do esporte, em prol da causa comum de reerguer a indústria do cavalo de corridas na França.

Este processo, de liderar pelo consenso e usar de toda sua paixão para incentivar ao invés de dispersar - já aplicado por Lagardère para erguer e consolidar seu império industrial -, durou praticamente oito anos (1995-2003), período no qual ele mudou a face do turfe local.

Entra o destino, permanece a obra

Ao final do ano de 2003, quando estava para ser reconduzido por aclamação ao seu terceiro mandato à frente da entidade, Lagardère faleceu súbita e inesperadamente, aos 75 anos de idade. A esta época, porém, a France Galop e, principalmente, o PMU (a empresa que dirige as apostas na França) já estavam inteiramente consolidados.

No ano de 1998, todo o apaixonado envolvimento de Lagardère com a France Galop e a criação (que ele dizia ser a base e o princípio de tudo nessa indústria), seu cavalo Sagamix venceu o Prix de l’Arc du Triomphe, e Linamix liderou pela primeira vez as estatísticas de reprodutores. Ele próprio, Jean-Luc, sagrou-se líder de proprietários e criadores.

Sob as cores cinza, boné rosa, seus animais ganharam um total de 12 provas de Grupo I: o Diana (com Restless Kara, 1988); a Poule d’Essai des Poulains (com Linamix, em 1990); o Jacques Le Marois (com Miss Satamixa, em 1995); o Saint Alary (com Luna Wells, em 1996); o Grand Prix de Saint-Cloud (com Fragant Mix, em 1998) e o Prix de l’Arc du Triomphe (com Sagamix, também em 1998); o Grand Prix de Paris (com o tordilho Slickly, em 1999, hoje excelente reprodutor) e o Prix Royal Oak (com Amilynx, em 1999 e 2000); o Criterium de Saint-Cloud (com Sagacity, em 2000); e a Poule d’Essai des Poulains e o Jacques Le Marois (com Vahorimix, em 2001).

Com os animais vendidos por ele em leilão, ou particularmente a vários proprietários, a criação Val Henry venceu mais quatro provas de Grupo I, com Polytain (Derby francês), Slickly (Moulin de Longchamp), Val Royal (Breeders’ Cup Mile), e Fair Mix (Prix Ganay). Dois meses após sua morte, um dos poucos animais retidos pela família, Clodovil, ganhou a Poule d’Essai des Poulains.

Mas na primavera de 2005, seus herdeiros cederam, em um só bloco, porteira fechada, toda a criação Lagardère ao Príncipe Karim Aga Khan. E as cores cinza, boné rosa, que remontavam a François Dupré, finalmente desapareceram.

Os produtos do Haras d’Ouilly, entretanto, continuaram a brilhar nas pistas européias, e no mais alto nível, com Valixir (Prix Ganay e Queen Anne Stakes), Vadawina (Prix Saint Alary) e Carlota Mix (Criterium Internacional).

Tempos depois, a France Galop resolveu dar o nome de seu grande renovador à mais antiga (1858) e melhor dotada prova de Grupo I de seu calendário clássico reservada aos produtos e 2 anos de idade, chamando o Grand Criterium de Prix Jean-Luc Lagardère.

E fazendo-o correr no maior dia do turfe francês, o 1º de outubro do Prix de l’Arc du Triomphe.

Para qualquer juvenil, ganhar o Prix Jean-Luc Lagardère, 1.400 metros, em Longchamp, no difícil percurso da pista nova, segundo disco de chegada, é hoje considerado o grande trampolim para uma brilhante carreira clássica aos 3 anos de idade.

Algumas reflexões

Todo empreendimento humano necessita sempre de um homem especial que o transforme, quando a maioria ao redor parece ter perdido a capacidade de enxergar saídas e soluções. Mas para isso são necessários dois atributos: fé e confiança no futuro. E um essencial: a paixão pelo empreendimento.

Mas paixão é coisa da alma. Paixão não se inventa. Paixão não se improvisa. Ou se é, ou não se é apaixonado por aquilo que realmente toca a nossa sensibilidade. E quando não toca, não há paixão.

Pode até haver simpatia - afinal, as etimologias são iguais: tudo vem de pathos. Pode até haver o prazeroso desfrute da coisa. Mas paixão, essa espécie de virtude ensandecida que move o ser humano, isso não há. E quando não há, só se vê problemas, onde o apaixonado pela coisa só enxerga soluções.

Jean-Luc Lagardère era um apaixonado pelo turfe, em todos os seus sentidos e formas, da criação às corridas; da presença constante nos hipódromos, às viagens para assistir os leilões de potros. Sua segunda natureza, não era outra, senão a paixão pelos cavalos de corrida e tudo que a eles se refere.

Suas palavras no dia da posse na France Galop, são definitivas: "Não aceitei este mandato para gerir um declínio julgado inexorável."

Para ele, nada era inexorável e derradeiro em relação ao turfe francês. Ao contrário, tudo era perfeitamente possível, e todos os caminhos para resgatar a atividade do fosso em que fora atirada, perfeitamente claros. Com uma clareza apaixonada de ofender a vista.

Era essa mesma paixão pelo turfe, aquela que animava e alimentava os fundadores do Jockey Club Brasileiro.

E melhor definição não há, que a frase escrita por eles, em 1926, na placa de bronze da entrada da tribuna social do hipódromo da Gávea, ao se referir à mera "sympathia" (na época era assim a grafia da palavra) do Poder Público, em relação ao custo da majestosa obra.

Os fundadores do clube eram, sem dúvida, apaixonados pelas corridas e pelo hipódromo. E encontraram meios e formas de erguê-lo cercados por todas as dificuldades. O Poder Público, embora desfrutando do empreendimento, era apenas "sympathico" a ele.

Eis a abissal diferença entre as duas coisas.

por Sergio Barcellos



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